sábado, 6 de maio de 2017

O e-mail que não mandei


Eu aguardo ansiosamente pela resposta do e-mail que não te enviei. Se tivesse seu endereço, também não enviaria uma carta, apesar de saber que você provavelmente gostaria mais do papel que do impalpável.

Afinal, se tivesse te enviado, seriam duas sensações difíceis de sentir. Uma seria o constrangimento de ter vivido tanto apenas nos meus sonhos, de ter te possuído algumas vezes só depois de ter adormecido, mas enquanto acordado, ter imaginado todo tipo de sacanagem com você. Uma outra seria indecisão por não saber como agir, caso fosse recíproco. Várias decisões para tomar, algumas pessoas a magoar e diferentes caminhos para trilhar.

Melhor não ter enviado, nem mesmo nunca ter escrito. A mesma mente da sacanagem também já imaginou palavras formando frases que se transformaram em parágrafos até construir um texto inteiro sem verbalizar.

Penso que tanto recuo ao ponto de não tomar atitude alguma seja o melhor, desse modo você continua sendo minha musa dos quadros que nunca pintei. Porque naquele momento eu precisava de uma paixão, e talvez você também. Tinha-me esquecido de tão bom e confuso era sentir o coração em outro ritmo só de ver você, perder a ordem dos pensamentos quando sentia o seu perfume e te ver cada dia com um batom de cor diferente. 

Mas nós dois já vivenciávamos o amor. E diferentemente da paixão, o amor não é uma variedade de batons, mas sim o conforto da calça do pijama de algodão com um resto de máscara de cílios escurecendo ainda mais as olheiras. Naquela época, eu estava um pouco cansado do pijama e sonhando com  a lingerie vermelha que um dia me atrevi a olhar durante um descuido seu.

E mesmo assim ainda preferi o conforto. Para que arriscar sendo que você mesma tinha dito que paixão era tolice? Portanto, sigo de pijama até hoje tentando esquecer as marcas de batom que sequer saíram da sua boca.



domingo, 19 de fevereiro de 2017

Uma vida mais viva - sem mídia social e com menos consumo



2016 foi uma jornada. Sim, sei que estamos em fevereiro e já já é carnaval, mas meu ano começou para valer há pouco. Ano passado eu pensava sobre várias questões. Uma delas era o meu vício com o mundo online.

Acho que foi por volta de 2002 que os blogs surgiram na minha vida. Nessa época eu já sabia um pouco de html, porque o Blogger ainda não tinha uma opção de template tão interativa e fácil como hoje. Conhecimento esquecido hoje em dia, mas aprendido fuçando e com a ajuda de uma amiga. E depois dessa necessidade de publicar o dia-a-dia de uma adolescente de classe média, veio o Orkut que simplificou as publicações. Na época acho que eram 10 fotos permitidas por álbum ou perfil, não me lembro ao certo, nada de "overposting".

Mas os anos passaram e eu estava sempre conectada. Sempre a procura de uma aprovação invisível e um desespero de registrar cada momento da minha vida, pois sem essa validação era como se isso não tivesse existido. Digo "era", porque há 15 dias fechei minhas redes sociais: Instagram e Facebook.

Do Facebook eu já tinha conseguido afastar antes por cerda de um ano. Não precisava de um contato direto com uma sociedade que respira ódio e intolerância. Tomo algumas coisas para mim. Ainda estou em um processo de conseguir separar o que me atinge e o que não me toca diretamente. É realmente um processo, mas ficar distante das mídias sociais com certeza tem me ajudado.

Como foi a segunda tentativa de desativar o Facebook, esse passo foi fácil. Difícil mesmo foi o Instagram. Foi desapegar de todas as pessoas que de alguma forma fizeram parte da minha vida, pois as que estão presentes atualmente dispensam contato via comentários em fotos. Elas têm meu número, sabem onde eu moro. Complicado é desapegar desse passado que a gente insiste em correr atrás para ter nada em troca, apenas fofoca.

Outro ponto do Instagram que me machucava era o consumo. Eu seguia várias blogueiras e meu fraco é maquiagem. Portanto eu tinha uma rotina em que durante o meu almoço solitário eu vasculhava novos produtos lançados, alguma outra técnica para disfarçar alguma imperfeição para fingir que somos todas perfeitas e ter aprovação dessas blogueiras que nem sabem da minha existência.

O mais irônico é que eu fechei minha conta no Instagram por acidente. Achei que fosse um bloqueio temporário e que em um momento futuro eu ainda poderia ter acesso às minhas fotos e salvá-las. Mas quando eu desativei, perdi meus dados e todas aquelas fotos desesperadas por um número X de "likes". No primeiro momento fiquei meio perdida e não acreditei que havia feito aquilo. Porém passado o susto, veio o alívio. Eu poderia viver livre sem ter de tirar foto de tudo que eu estivesse vivendo, provando ou vestindo.

Afinal, eu nunca tinha tido uma relação saudável com essas mídias e de uns anos para cá, só piorou. Anterior a esses acontecimentos fiz uma viagem que de certa forma me mudou e ainda está me mudando.

Antes eu havia saído do país apenas para os Estados Unidos (centro do consumismo) e para a Argentina (não diferente o bastante para se ter um choque cultural). Dessa vez eu fui para a Tailândia. Não esperava muito, pesquisei pouco - mais sobre os pontos paradisíacos -, mas o que me tocou foram dois lugares em específico. 

Para chegar em Bangkok, fizemos algumas conexões e uma delas foi em Pequim. E como aquele céu me chocou. Eu sempre amei assistir ao pôr do sol e ver o céu cinza por conta da chuva que está prestes a cair quando o vento também anuncia a chegada do temporal. Mas na China nada disso é possível. O céu é cinza por conta do meu e do seu consumo desenfreado. A poluição é tanta que não é possível enxergar os aviões decolando.

Isso me entristeceu muito, assim como todos os animais na ruas da Tailândia. Cachorros e gatos (vários com o rabo quebrado ou cortado) vagando pelas ruas, além do mal cheiro por conta do lixo e esgoto nos rios que atravessam a cidade. Mas houve uma cena mais forte que foi a caminho do aeroporto de Ko Samui em que passamos por um aterro sanitário a céu aberto. Como foi chocante ver e sentir o fedor dos nossos hábitos.

Diante desses cenários, no retorno para casa, fiz uma promessa de não comprar nada relacionado a maquiagem por 6 meses. Mas já pretendo estender esse prazo quando a data limite chegar. Eu tenho muita coisa e não preciso de mais. Para ser sincera, nem preciso de tudo que tenho. Quando cheguei em casa reorganizei minhas coisas e percebi como eu estava descontrolada, em busca de um preenchimento desse vazio que nunca chegava junto às encomendas do correio.

Nessa viagem eu pude perceber que não é o material que preenche a gente e sim pessoas e experiências. Pela primeira vez fui forçada a viajar com uma mala pequena por conta de algumas linhas aéreas econômicas que usamos e desde o início achei divertido o desafio. Viajei com 4 blusas, 1 vestido, 1 macaquinho, 1 saia, 2 shorts, 1 calça jeans e 2 calças de tecido. Ah, e 3 sapatos. E não é que não me faltou nada? Tive roupa para todas as ocasiões. Confesso que por ser um processo tive um surto de compras biquinis e maiôs antes de embarcar e nesse ponto eu exagerei na conta, até porque não sou frequentadora assídua de piscinas nem praias.

Esses são alguns dos pontos que quero mudar em 2017. Outras coisas estão acontecendo ainda como deixar de usar absorventes descartáveis e fazer uma tatuagem (sempre quis, mas nunca tive coragem), que aliás já fiz.  Nessa direção mais ecológica, mais saudável comigo e com o mundo pretendo direcionar o meu ano.