quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O abraço do adeus




Sei lá se foi indecência do destino, mas uma despedida mais simbólica que aquela não haveria de ter. Não nessa vida.

Marina sabia que provavelmente não se encontrariam mais naquele caos de cidade. Por mais difícil que fosse, todo dia, ao pegar o metrô, desejava que o mesmo destino sacana os fizessem, sem querer, esbarrar no dia-a-dia do outro. Mas por mais que torcesse, sabia que as mínimas probabilidades não ajudariam. Ela não conhecia ao certo o roteiro de Joaquim, mas sabia que seu caminho de casa não o levava àquela direção.

Pois, enfim, era um último breve adeus. Teve pena de todo aquele tempo que deixaram de viver. Entretanto, era também uma espécie de alívio. Não se preocupou com a sensação. Queria estar lá e ponto. Pronto.

Sabia que não faria diferença. No fim nada existiu e talvez tivesse sido tudo uma falta de ilusão meio sem graça.

E quão irônico o destino seria! Tiveram poucos minutos com tanta gente em volta que expressões e desejos faltaram. As palavras foram resumidamente breves. Podia-se apenas perceber a risada desesperada dela e a falta de jeito dele.

Iriam dar um último abraço, um pequeno toque que antes já significou tanto. E assim, o presente impediu. Os olhos dos outros nem notaram. Talvez até tenham percebido alguma tensão do momento e resolveram ignorar o sexto sentido.

E o último abraço nunca aconteceu. O destino já dando gargalhadas de algum lugar não muito longe, os impediu da ação. Marina e Joaquim bem que tentaram, mas naquele instante a pretensão do toque já bastou. 

Ouviu-se um "boa sorte" de um lado e o "até mais" de outro.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A complicação de se tentar viver o simples



À medida que o tempo passa e a idade se torna um número maior, as coisas parecem ficar mais complicadas e ao mesmo tempo, simples. Porque na verdade nada é do jeito como antes tinha certeza. Complexo, não? Não nego.

Mas não nego que às vezes invejo os simples. Nem jornal assistem. Senso crítico não existe para alguns que se ditam entendedores da vida e da política. Cada um usando alguma plataforma para ditar a ideologia com a qual mais se identifica quando na verdade apenas cospe para cima, pois que não faz a mínima diferença para quem não concorda. E assim cada um segue seu rumo tentando convencer a todos de sua verdade quando na realidade ninguém liga.

Eu mesma bloqueio. Tento fingir que nada me afeta. Viver em um casulo é bem mais fácil que se deixar atingir por tanta energia assim. Competição disfarçada de justiça, inveja dissimulada, falta de amor e paciência, e talvez o maior de todos os sentimentos dessa nossa nação esquisita: intolerância. Mas quem me dera fosse privilégio de um só lugar. Não é. Talvez seja o mal do ser humano com tanto acesso às palavras e possibilidades de alcance com o discurso.

E aí eu nem dissimulo inveja. Eu gostaria de, no fundo do coração, me apegar a algo que me faria fugir dessa sensação de desilusão, falta de saída, ausência de esperança na véspera de ano novo e apatia no natal. E ao mesmo tempo critico e gostaria de participar de algumas fugas como aquela pela Igreja, pela política, seja esquerda ou direita, pela família preocupada em compartilhanr tantos momentos felizes com os outros, deixando no modo privado as intrigas e dificuldades - como se algum instituto fosse a única resposta para tudo.

Assim me afundo em apatia. Talvez essa seria uma palavra para 2016. Eu brincava de gostava de anos pares, mas até essa minha baboseira deixou de fazer sentido. Quem sabe tantos números 7 no próximo ano me deem a sorte que ando precisando, mas mais que isso: alguma espécie de ilusão e motivo. Acho que não.

Não sei se há saída quando se começa a enxergar a vida com esses óculos. Seria uma visão mais limpa ou rebuscada? O coração não sabe discernir e a alma se sente pesada. Não aguenta nem mais acompanhar a brutalidade humana por meio de notícias e se pergunta o porquê de ter estudado Jornalismo se não aguenta o tranco. Mas a verdade é que o tempo me trouxe sensibilidade, medo, insegurança e incertezas. 

Seguro as lágrimas por nervosismo com certa facilidade quando lembro de como um dia já fui, mas descobri que segurar o choro pode ser pior. Porque assim as coisas da vida me afetam mais. Tomo para mim a dor dos outros. Concordo com o ditado que se deve colocar no lugar do outro, mas talvez eu tenha tornado isso pessoal de mais e tomado isso como uma verdade absoluta, da forma mais séria que poderia ter sido tomada. Afinal, seriedade sempre foi um adjetivo próximo a mim.

E acho que pensar nisso tudo faz mal. Melhor mesmo é viver num ciclo infinito da rotina (à la Westworld) e se contentar com o que está restrito a minha volta e parar de pensar besteira. Tentar engolir o mundo com um gole só para matar a sede de uma só vez pode não ser muito inteligente, mas é complicado deixar alguma intensidade e certa insanidade de lado. 

Talvez seja hora de acabar com aquela garrafa de vinho da geladeira e ir dormir.