segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Insensível ao invisível



Era uma semana comum, nada demais. Afinal, a maior parte da nossa vida é assim, feita de rotina. Alguns atos se tornam, por conta da repetição, praticamente um ritual.

Dessa forma é a o meu dia-a-dia, marcado por algumas estações de metrô. Há a estação ao lado da minha casa, aquela onde eu descia para assistir aula, e agora outra que é onde escolhi como meu "escritório compartilhado de estudo".

Hoje, no meio dos rituais de me exercitar, me arrumar e me maquiar rumo ao meu canto do período vespertino, uma coisa diferente aconteceu. Se não fosse a meia hora anterior ao horário normal de sair de casa, eu não havia presenciado aquela cena.

Um senhor de idade pedindo esmola no vagão. Até aí nada de novidade, pois a pobreza no nosso país é tão invisível quanto a força dos nossos hábitos. Lá de longe eu ouvia aquela mesma história triste compartilhada por tantos; talvez seja pura insensibilidade de minha parte, assim como de muitos, mas o repertório não me toca mais.

Ficamos com peso na consciência por não ajudar, mas o sentimento não é profundo o bastante a ponto de nos mexer em busca de algumas moedas na carteira. Talvez seja a banalização da pobreza, nosso egoísmo ou medo de algum tipo de roubo ou golpe. Provavelmente, de minha parte seja apenas "mesquinhagem" mesmo. 

Mas aí, no meio da minha preocupação em olhar apenas para o meu umbigo, de repente vi uma mulher que enxergou o outro. Ela viu aquele senhor pedindo dinheiro no meio da história triste de vida dele. Ele, tão ignorado naquele vagão, até estranhou quando ela se aproximou para conversar.

A mulher perguntou o que ele fazia em São Paulo, por que ele havia vindo para a cidade grande, o que havia acontecido para ele chegar àquele ponto e o que ele faria com o dinheiro que conseguira. Assim como muita gente ao meu lado, vi-me envergonhada. Por que não nos interessamos pelo próximo?

Ela, em um gesto tão simples, chamou atenção das pessoas em volta. A mulher de casaco branco e bota até o joelho, falando baixo, conseguiu mais consideração que o senhor que vestia um moletom sujo e pedia dinheiro com o tom de voz mais alto que as cordas vocais dele permitiam.

Depois de ele contar que queria voltar a morar perto da família na cidade de onde viera, ela perguntou ao senhor se ele gostaria de retornar hoje mesmo. Ele, meio surpreso, e eu tentando disfarçar minha curiosidade - concentrando os olhos na tela de tv do vagão, mas com a audição voltada a eles -, respondeu que sim.

- Eu só vou a um compromisso agora e se o senhor puder me esperar por uma hora na frente do prédio onde trabalho, depois posso comprar a passagem. 
Disse ela.

-Se você puder, tá bom.
Sem muita reação,  foi tudo que conseguiu dizer. 

Após esse diálogo, o metrô parou e eu tinha de descer. A mulher que estava tão concentrada no senhor, viu-se perdida por alguns segundos e se perguntou se já era a estação em que tinha que sair. Saí de cabeça baixa e envergonhada colaborando da forma mais ridícula que poderia:

- Aqui é a Ana Rosa. 


Um comentário:

Thamires Figueiredo disse...

E com isso aprendemos que devemos ser melhores a cada dia. Aprendi um pouquinho mais aqui com você, obrigada por isso.

Beijos querida!