segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Espaços e verdades





Demorou anos para entender aquela angústia tão familiar. Exatos trinta e cinco. Era uma mistura de ciúme e possessividade com a vontade de se libertar. Camila era assim, oito ou oitenta, como se costuma dizer. Tinha dentro de si sentimentos tão antagônicos.

Provavelmente no início, apenas repetia comportamentos que enxergava no dia-a-dia. Depois, tornou "o jeito dela mesmo", como era conhecida. Séria e brava. Era comum descrever Camila desse modo.

Quando conheceu Fabrício, nem sabia, contudo já havia entendido que a liberdade essa essencial, e o ciúme e a possessividade nem tanto. Ele era popular e não iria restringir as horas livres apenas a Camila. Ela não se entristecia com isso. Aproveitou e teve o primeiro relacionamento assim.

Deixaria Fabrício ser feliz também sem ela, contanto que ele fizesse o mesmo. Claro que ele não tinha problemas com isso. O exemplo que ele seguiu desde sempre era o oposto. Fabrício respeitaria o espaço da companheira.

Mas aí Camila sonhou que ele estava desacompanhado. O antigo sentimento veio à tona; não suportava a ideia de Fabrício se divertir sem ela. "Imagina! Não pode!". Com custo conseguiu segurar o impulso e não disse nada. Não contou o sonho. Se fosse outros tempos, falaria. E o sonho mexeria tanto com a cabeça dela que talvez até repensasse o conceito de liberdade.

Porém ela se lembrou de quantas mulheres conhecia com aquele mesmo pensamento da Camila do passado...Elas prendiam o parceiro e elas mesmas. O homem era proibido de sorrir por e com outra mulher. Hoje sente dó por elas.

Depois desse sonho, uma frase - claro que dita por um homem - não saiu da cabeça de Camila por dias:

- Por puro egoísmo não conseguimos imaginar outra pessoa ao lado de quem amamos.

Agora Camila entende que um casal na verdade não é apenas um. Um casal é simplesmente a soma de dois. E os dois são seres independentes. 

Assim como Camila, Fabrício poderia querer e ter alguns momentos sozinho, falar besteira com os amigos, desejar outras mulheres secretamente. No fundo ela sabe. Mas há coisas que é melhor fingir não saber. Afinal, todo mundo deseja todo mundo, apesar de a maioria se contentar apenas com uma pessoa. Seria isso contentamento ou imposição? Não sabia mais. Talvez demore mais trinta e cinco anos para Camila desvendar essa outra verdade.

Nenhum comentário: