segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A utopia da avenida Paulista



Ela acha que os grandes sonhos se iniciam com pequenos detalhes reais. Quase que acidentalmente, foi sempre assim.

Como nunca gostou de calor, sempre sonhou em morar em algum lugar frio. Não gostava de ao meio-dia não ter condições de andar na rua, pois o suor incomodava até a região da sobrancelha. Contudo, não aguentou dez meses abaixo de zero. Ficou por sete.

Hoje sorri quando tem de envolver algum lenço no pescoço por conta do vento gelado do inverno. Sente uma plenitude esquisita nesses instantes.

Ela desejava ir para um lugar maior. Um milhão de pessoas parecia um número pequeno demais para a juventude precoce e ambiciosa que teve. Caminhou bastante para quem ainda não tinha nem 30 anos nas costas. Percorreu apenas algumas horas e se instalou, mas também não se viu muito satisfeita. Faltava alguma coisa.

Mesmo com aquela sensação contínua de falta, fingiu estar tudo bem e seguiu fazendo coisas que todo mundo faz: estuda, trabalha, aprende, quebra a cara e distribui sorrisos tortos por aí, guardando as verdadeiras expressões só para quem merece.

Depois de um tempo, percorreu mais alguns quilômetros e já estava bem distante do local de origem. Já não tinha nada a ver com a menina do interior do país. Aqueles lugares os quais frequentava eram estranhos aos seus olhos, o calor incomodava mais até do que da época em que o suor era rotina.

Dentre os sonhos que tivera, havia um em especial. A avenida Paulista sempre pareceu bonita demais, cheia de vida, repleta de detalhes, com gosto de cidade grande e diferente de tudo que conhecia. Parecia nem fazer parte de onde morava. Quando se misturava aos pedestres, esquecia-se das frustrações e fazia um pedido disfarçado e silencioso para que um dia fizesse daquela avenida sua rotina.

Porém quando se sonha demais, a realidade se esquece dos detalhes e deixa as sensações palpáveis. A emoção, a visão, os momentos de alegria e solidão. Percebe-se tudo de uma forma exagerada. Demora um pouco para se acostumar com ruas e esquinas estranhas. Enquanto isso, tem de lidar com os extremos a toda hora, todo dia; e segurar a onda ao fingir não ter agonia alguma.

Engole a saliva seca e torce para conseguir fugir de alguma maneira de toda a frustração dos "nãos" recebidos; das ausências de respostas só para se sentir mais digna de si. "Um trabalho dignifica o homem", é o que se diz por aí. Ainda não se viu digna. Já não se sente digna há dois anos.

Recuperou um pouco dessa dignidade e ainda tenta disfarçar a falta graças ao rótulo que escolheu para si. Estudante. Sente-se protegida dessa forma. Ignora o fato de ter estudado por toda a vida e ter um título o qual não muito adianta. 

Pelo menos dessa maneira tem uma desculpa para se sentir completa e ter um objetivo. É o que ela pensa. Uma razão para programar o alarme e acordar na manhã seguinte. Até que dá certo em alguns dias. Já em outros, não consegue se enganar tão bem e o vazio a incomoda desde o momento em que abre os olhos e percebe ter de viver essa fase ainda sem data de fim.

Um comentário:

Débora Gomes disse...

A compreendo tão bem! Belo texto. <3