segunda-feira, 11 de julho de 2016

Uma passagem de volta, por favor


Jean não era bonito. Isso não era segredo para ninguém. Mas sempre fora o "gente boa" da turma. Vivia rodeado de mulheres, porém todas amigas. Nem em uma cidade como São Paulo conseguia encontrar uma companheira. Então resolveu se aventurar em um desses sites de encontro.

Fez o cadastro e esperou por alguma coisa. Os dias se passaram e começou a conversa com uma francesa. Trocaram fotos. Se ela já não gostasse dele, como estava acostumado, insistiria mais algumas vezes com mulheres de diferentes partes do mundo. Não havia problemas.

Mas para espanto de Jean, o papo fluiu. Passaram meses trocando mensagens. Por mais que ela não estivesse do mesmo lado do Atlântico, ele se sentia preenchido com coisas que já lhe eram estranhas: companhia, jogar conversa fora e flertar.

Até que um dia a tal francesa resolveu lhe surpreender. Seria a formatura de graduação dela. Amigos de vários países vizinhos na Europa iriam para festa, então por que não convidá-lo? Pelo menos foi assim que Jean pensou. Ele não teve dúvida quando o convite surgiu. Contratou uma agência de viagens e comprou as passagens para dali um mês.

Paris. Sempre teve vontade de conhecer, mas nunca teve coragem suficiente para viajar. Faltava-lhe companhia. Contudo esse problema era parte do passado.

Esperançoso em busca do amor, Jean embarcou. Entretanto o que não estava em seus planos era ser tratado como apenas mais um dos convidados. A francesa não deu oportunidade para ficar a sós com ele. Ela estava sempre rodeada de amigos. "Será que ela não gostou de mim pessoalmente?". "Será que esperava um homem rico para lhe sustentar?".

Jean ficou confuso. A francesa não era a mesma pessoa do bate-papo. Em Paris, ela era seca, fria e distante. Online, ela foi doce, carinhosa e atenciosa. Tanto que a versão digital lhe ofereceu hospedagem. Mas depois de dois dias naquele clima estranho, na casa cercada de gente mais jovem que ele, Jean procurou um hotel.

Eles se despediram rapidamente. Jean até percebeu um certo alívio por parte da francesa. "Vida que segue", pensou. Pelo menos estava em Paris e não iria desperdiçar uma viagem por uma desconhecida. Arriscou o francês, comeu refeições solitárias nos restaurantes que tinham mesas nas calçadas e andou atrás de novidade nos clássicos museus.

Assim o resto da semana passou e o dia do retorno amanheceu. No caminho ao aeroporto prometeu a si mesmo que nunca mais faria uma besteira dessas por "amor". Mas já no avião se perdoou e aproveitou a variedade de filmes que ainda estavam em cartaz no Brasil. Evitaria idas solitárias ao cinema.

Já em Congonhas, era hora de pegar a mala. A bagagem não havia chegado, mas logo observou uma moça não tão graciosa tentando tirar a mala pesada da esteira. Resolveu ajudá-la. Como gesto de agradecimento, ela decidiu fazer companhia para Jean até que a bagagem dele chegasse. 

Mas a conversa foi tão simpática que resolveram dividir o táxi. Iriam os dois para a zona sul. Antes de ela descer do carro, Jean tomou coragem - talvez ainda restasse alguma depois daquela viagem - e pediu o número da moça.

Assim, meio que sem planejar nada, eles começaram a conversar e o relacionamento foi a mais natural das consequências. Hoje, casado com a moça do aeroporto, Jean ainda ri de como se conheceram. Precisou se iludir em outro continente para conhecer o amor em território tupiniquim.

Um comentário:

Thamires Figueiredo disse...

É como dizem por aí, o amor chega quando não se espera. Fiquei feliz pro Jean.

Beijos querida!