quarta-feira, 6 de julho de 2016

Sonhos insignificantes traçados em avenidas desconhecidas



Virou a página do calendário. Já era julho. Sabia que tinha que fazer alguma coisa, tomar uma atitude. "Já sei", pensou Alice. Iria limpar a casa. Mas não seria uma faxina qualquer. Limparia também as coisas que normalmente deixa passar: os quadros, as janelas e os lustres.

Sentia-se calma limpando o apartamento. Era uma espécie de limpeza de espírito. Pegou a escada e começou. Ligou o som e escolheu uma de suas músicas favoritas.

Tentou concentrar em cada cisco de poeira que mal enxergava, mas era uma tarefa árdua, pelo menos naquele dia. A vida estava uma bagunça e não seria tão simples pegar um pano e sair limpando-a por aí.

Pela primeira vez estava bem consigo mesma, entretanto queria mais. Planejava uma viagem que transformaria sua vida. "Estou pronta para isso?", refletia enquanto tirava cada livro da estante para limpar. Após aquele emprego com um chefe difícil de lidar, salário injusto e horas extras não pagas, talvez fosse a hora perfeita.

O dinheiro guardado tinha que ser gasto com alguma experiência maluca. "O contrato do aluguel vence nas próximas semanas, você não tem nenhum relacionamento para ofuscar os planos, o seguro-desemprego está garantido por alguns meses... Por que não?", concluiu.

Depois da limpeza das lâmpadas de casa, Alice havia decidido. Mudaria de país. O Brasil já era pequeno demais para ela. O inglês estava "ok". Não arriscaria uma outra vida onde se comunicar fosse tarefa impossível. A trajetória era doida o bastante.

Mas qual país? Estados Unidos para se juntar aos milhões de brasileiros em busca do sonho americano? Inglaterra para se adaptar à pontualidade e arrogância dos britânicos? Austrália para tirar fotos dos cangurus e se apaixonar por algum surfista loiro com os fios até o ombro? Não se via em nenhum desses destinos clichês.

Leu em algum lugar que uma cidade do interior da Nova Zelândia tinha mil postos de trabalho para os 800 habitantes. Havia apenas uma pizzaria, um bar e uma escola. Para tentar atrair moradores, os salários oferecidos não eram ruins, cerca de dez mil reais por mês. Não fazia nem a metade disso como jornalista!

Tinha certeza que iria para o interior. Não queria mais saber de metrópole. De nada adiantava mais de 11 milhões de pessoas se passava os dias sozinha. Desejava viver um pouco em um lugar mais desenvolvido para não ter que encarar a pobreza de frente e continuar sem coragem de fazer alguma coisa para mudar.

Conseguiu o contato do administrador de Kaitangata - "tenho que me acostumar com esses nomes exóticos", pensou enquanto digitava - e escreveu um e-mail contando dos seus planos. Logo recebeu a resposta, questão de um dia. "Será muito bem-vinda", respondeu Bryan. Logo a ofereceu um trabalho de assessoramento na escola.

Alice nunca pensou em trabalhar em escolas. Não tinha muita paciência com crianças, mas para começar, por que não? Trabalhar no meio de papéis fazia parte da sua área, tentava se convencer.

"Então é isso". Comprou as passagens, despediu dos parentes distantes, dos amigos que quase não tinha, assinou a papelada quitando o aluguel e resumiu uma vida inteira dentro de uma mala.

Quando o dia da mudança chegou, não se arriscou em pensar se não iria desistir daquela maluquice. Mas não tinha jeito. No avião, com a companhia dos pensamentos se indagava: -Nunca nem fui para Nova Zelândia, para que isso?

Porém agora era uma ida sem volta; pelo menos até juntar dinheiro por lá. Chegando em Wellington, sentiu-se estranhamente plena. O calor era conhecido, o inglês não era tão difícil e a cidade era limpa, repleta de gente educada. Quase se arrependeu por não ter escolhido a capital para ficar uma temporada. Contudo não dava. Havia um ônibus esperando-lhe rumo à Kaitangata.

Não sabia o que esperar, o que conhecer, nem onde moraria ao certo. Uma corretora havia apresentado algumas fotos de casas vazias. Ainda não acreditava que o dinheiro do aluguel de um apartamento dois quartos paulista sobraria com uma casa de três quartos e quintal em Kaitangata.

Eventualmente o ônibus estacionou em uma rua vazia. Uma cidade fantasma e sem vida. Desceu um pouco desiludida, mas também esperançosa. No fundo se identificou com aquelas calçadas sem passos. Nos últimos anos, a rotina era um pouco assim também, não prometia muito. E foi assim, sem perceber nem notar, que se juntou aos milhões de brasileiros em busca do sonho do país desenvolvido. Nova Zelândia seria o seu Estados Unidos.