sexta-feira, 1 de julho de 2016

Das desilusões femininas


Mais uma vez trouxe o assunto para a roda de amigas. Entre elas, Amanda podia falar sobre qualquer coisa. Ela precisava falar sobre o casamento, mas tocaria no mesmo ponto de meses atrás.

-Não sei mais o que fazer. Parece que ele não sente mais desejo por mim. 

-Mas será que não é apenas cansaço? Trabalho? Não sei.
Ninguém queria concordar com a hipótese de Amanda. Laura foi uma das que tentava confortar a amiga.

O casamento estava morno há algum tempo.  Havia sexo apenas quando Amanha se dispunha porque se fosse por Lucas, o marido, depois da janta eles iriam assistir televisão mesmo. Todas as noites.

- Acho que não. Já vi algumas coisas que ele esconde pela casa. Achei umas revistas e vi mulheres nuas não só impressas, mas também digitalizadas. O problema deve ser comigo.

-Amanda, você já tentou comprar umas coisas diferentes no sex shop? Usar lingeries provocantes? Talvez seja falta de algum estímulo.
Bruna, já com certa pena de Amanda, queria achar uma solução. Porém Bruna nem Laura era casadas, elas não conheciam aquele mal chamado rotina.

Sem muita esperança, Amanda resolveu investir na ideia do sex shop. Procurou alguns artigos que poderiam apimentar a relação. Ao mesmo tempo que se empolgava com diversas opções, sentia-se triste por não perceber o esforço recíproco do marido. 

Tudo tinha que partir dela? Era a rotina da casa: janta, faxina, filhos na escola, passeios de finais de semana e logísticas de viagens. Agora até o sexo tinha que ser iniciativa dela. Teria Amanda mal acostumado Lucas? Não pensou muito nisso.

Ela nunca fora dessas que sonhava com o casamento desde pequena. Houve fases em que ela nem cogitou vestir branco tampouco subir em um altar. Mas quando se apaixonou, essa certeza surgiu. Não esperava nenhum conto da Disney depois da lua de mel, mas achava que os homens teriam mais iniciativa. Quando começou a conversar com outras mulheres casadas do trabalho, percebeu que era unânime aquela desilusão. Depois do casamento, era a mulher quem tinha que comandar tudo, até o romantismo se ansiasse por algum devaneio. Os homens, em sua maioria, esbanjavam vantagens aos amigos, mas não se apresentavam na cama de casa.

No sex shop comprou coisas não tão polêmicas. Não queria assustar Lucas, por mais que ela soubesse que se fosse alguma daquelas mulheres nuas da revista, ele nada recusaria. Depois foi no shopping. Gastou quinhentos reais em lingeries. Estava disposta a salvar o casamento.

Com tudo em mãos, planejou os detalhes daquela noite diferente no quarto de sempre. Afinal casou com um homem que tinha nojo de motéis; não tinha como ser em outro lugar se não estivessem viajando. "Mas se fosse com aquelas mulheres..." Cortou o pensamento antes de concluí-lo.

Acendeu as velas, procurou uma playlist sensual, vestiu o corset e o fio dental e subiu no salto que só usava quando ia em festas. Esperou pelo marido. Após meia hora de quando ele deveria ter chegado, foi apenas uma mensagem no celular que chegou: "estou enrolado no trabalho, vou me atrasar".

Mais uma vez desiludida, decidiu postergar o plano e voltou para o pijama e a pantufa. Deixou a janta na mesa, mas ainda alimentava alguma esperança quanto àquela noite. Porém assim que Lucas rodou a maçaneta da porta e Amanda viu a expressão de cansaço marcando o rosto do marido, concluiu que teria que adiar um pouco mais.

Depois de jantar, louco por um doce na geladeira, Lucas não quis esperar. Eles tinham que ir ao mercado naquela hora. Como não havia nada para comer após a janta? Já eram onze da noite e ele não fazia ideia das lingeries, das velas nem das músicas que a esposa planejara. Talvez ele nem ligaria tanto. Assim, Amanda teve que trocar de roupa mais uma vez. Vestiu o jeans e foram ao mercado.

A caminho, pensava que naquele momento poderia estar aliviando a angústia daquele casamento morno. Mas já no mercado, ela concentrou nos itens que faltavam em casa. Realmente a geladeira não apresentava muitas opções. Até o caixa, não pensou mais naquilo.

Entretanto na volta para a casa a tristeza voltou a assombrá-la. Seria assim o resto do casamento? O resto da sua vida com ele? Ele sempre preferiria qualquer outra coisa a ela?

Quando viu um carro entrar em um motel a meia-noite, se perguntou se aquele homem dentro do automóvel estaria cansado como o marido. Talvez fosse o início do relacionamento. "Os homens não sentem preguiça quando acabam de conhecer uma mulher", dissera uma colega do serviço. Naquele instante teve certeza que o casamento havia lhe trazido uma coisa: desilusão. O marido não fazia questão de decidir nada, nem sobre ela.

Um comentário:

Jaya Magalhães disse...

Renata, que triste essa história!

O problema todo, ao meu ver, não foi o casamento, foi a pessoa com a qual ela escolheu casar. Né? Casamento não é sinônimo de desilusão e rotina não tem que ser uma coisa ruim. Se uma pessoa só faz tudo sozinha, casamento nunca existiu.

Gostei de conhecer seu espaço.

Beijo.