segunda-feira, 25 de julho de 2016

A distância que nos aproxima



Nos últimos tempos eu tenho estado tão distante de você. Longe de nós dois. Foi aí que eu recorri à nossa história que aconteceu assim, meio sem querer.

Como eu disse nos meus votos do dia 13, eu estava feliz sozinha e você não procurava um par quando nos conhecemos. Naquele dia, em setembro, oficializamos a nossa vontade de grudar um no outro.

Mas não sabíamos que o nosso amor não estava no grude. Era a distância que nos fortalecia. Brasília ficou pequena para nós dois. Os 22 quilômetros entre as nossas casas não foram motivo para dificuldades. Muito menos quando o seu trabalho resolveu te afastar de mim e te levou para outra região do Brasil. Não nos importamos com isso.

Talvez fosse aquilo que nos mantinha vivos, cheios de amor um pelo outro. Hoje, quando nos distanciamos fisicamente por alguns dias, percebo nosso amor se fortalecendo.

Quando isso acontece, mal posso esperar para te avistar e te abraçar. Sentir seu cheiro, sua barba e seu cabelo próximos de mim.

Reclamo para o vento que você me dá mais valor quando na companhia da minha ausência. Talvez o motivo de eu falar em voz alta seja porque repito seu comportamento.

Não nego meu signo. Aquariana rebelde com ascendente em touro perfeccionista, quero viver tudo ao mesmo tempo fazendo da melhor maneira que posso. 

Muitas vezes preciso respirar e você nunca se queixou disso. Mas depois de viver um pouco, sinto saudade do seu abraço na nossa casa.

Você, diferente de todos os outros, nunca me tolheu. Respeita minha mania de liberdade e me deixa voar. Talvez seja esse o segredo da sua alma sagitariana. Ri do ciúme como se fosse a mais triste das piadas.

Demorei a aprender isso. Precisei me distanciar um pouco emocionalmente para entender de onde vem a nossa força. Eu escolhi você e você me escolheu. Lembrei disso e voltei para você.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

O beijo dos lábios que nunca se encontraram


Acordou assustada no meio da noite. Alguém teria ouvido? Era madrugada e ela havia sonhado com ele. Jordana achou que tivesse superado, mas a memória de William ainda lhe rondava.

Bastou desabafar sobre aquele desejo secreto e proibido que se chamava William para a irmã. O subconsciente preparou uma surpresa: um sonho - que pareceu durar horas - com ele. Isso porque na presença da irmã disse que havia esquecido aquela história que na verdade não se tornou história alguma. 

Para William, nunca teve coragem de dizer nada. Bem que hesitou em alguns momentos, mas achou melhor deixar apenas na sugestão. Contudo isso não significava necessariamente que não ensaiou nomear com palavras tudo o que sentia, ou sentiu. Não sabia mais.

Naquele sonho, ela tomou coragem. Durante o sono, Jordana sentiu os lábios molhados e macios de William. Até lá, em que a realidade não existia, eles demoraram para se encostar, mas quando aconteceu... Tudo que ela se lembrava era da sensação. 

Jordana sabia que não iria abrir mão dele. Talvez William, no sonho, também não, pois se viram e se beijaram em várias outras ocasiões. De madrugada não se recordava onde foi que os lábios haviam se encontrado pela primeira vez, porém se lembrava que depois se beijaram no carro, no sofá, em um bar e até em uma garagem de uma casa qualquer. 

No sonho não havia complicações. Eram apenas as dois lábios inseparáveis que se esqueciam de todo o resto; na verdade naquele lugar não existia resto algum.

Mas quando acordou de madrugada, torceu para o nome de William não ter-lhe escapado da boca. Era o seu segredo e nada dali aconteceria. Olhou a escuridão do quarto e ouviu a casa silenciosa.  Respirou aliviada e tornou a fechar os olhos. Esperava ver o rosto de William mais uma vez em outro sonho. Queria lhe dar um último beijo.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Uma passagem de volta, por favor


Jean não era bonito. Isso não era segredo para ninguém. Mas sempre fora o "gente boa" da turma. Vivia rodeado de mulheres, porém todas amigas. Nem em uma cidade como São Paulo conseguia encontrar uma companheira. Então resolveu se aventurar em um desses sites de encontro.

Fez o cadastro e esperou por alguma coisa. Os dias se passaram e começou a conversa com uma francesa. Trocaram fotos. Se ela já não gostasse dele, como estava acostumado, insistiria mais algumas vezes com mulheres de diferentes partes do mundo. Não havia problemas.

Mas para espanto de Jean, o papo fluiu. Passaram meses trocando mensagens. Por mais que ela não estivesse do mesmo lado do Atlântico, ele se sentia preenchido com coisas que já lhe eram estranhas: companhia, jogar conversa fora e flertar.

Até que um dia a tal francesa resolveu lhe surpreender. Seria a formatura de graduação dela. Amigos de vários países vizinhos na Europa iriam para festa, então por que não convidá-lo? Pelo menos foi assim que Jean pensou. Ele não teve dúvida quando o convite surgiu. Contratou uma agência de viagens e comprou as passagens para dali um mês.

Paris. Sempre teve vontade de conhecer, mas nunca teve coragem suficiente para viajar. Faltava-lhe companhia. Contudo esse problema era parte do passado.

Esperançoso em busca do amor, Jean embarcou. Entretanto o que não estava em seus planos era ser tratado como apenas mais um dos convidados. A francesa não deu oportunidade para ficar a sós com ele. Ela estava sempre rodeada de amigos. "Será que ela não gostou de mim pessoalmente?". "Será que esperava um homem rico para lhe sustentar?".

Jean ficou confuso. A francesa não era a mesma pessoa do bate-papo. Em Paris, ela era seca, fria e distante. Online, ela foi doce, carinhosa e atenciosa. Tanto que a versão digital lhe ofereceu hospedagem. Mas depois de dois dias naquele clima estranho, na casa cercada de gente mais jovem que ele, Jean procurou um hotel.

Eles se despediram rapidamente. Jean até percebeu um certo alívio por parte da francesa. "Vida que segue", pensou. Pelo menos estava em Paris e não iria desperdiçar uma viagem por uma desconhecida. Arriscou o francês, comeu refeições solitárias nos restaurantes que tinham mesas nas calçadas e andou atrás de novidade nos clássicos museus.

Assim o resto da semana passou e o dia do retorno amanheceu. No caminho ao aeroporto prometeu a si mesmo que nunca mais faria uma besteira dessas por "amor". Mas já no avião se perdoou e aproveitou a variedade de filmes que ainda estavam em cartaz no Brasil. Evitaria idas solitárias ao cinema.

Já em Congonhas, era hora de pegar a mala. A bagagem não havia chegado, mas logo observou uma moça não tão graciosa tentando tirar a mala pesada da esteira. Resolveu ajudá-la. Como gesto de agradecimento, ela decidiu fazer companhia para Jean até que a bagagem dele chegasse. 

Mas a conversa foi tão simpática que resolveram dividir o táxi. Iriam os dois para a zona sul. Antes de ela descer do carro, Jean tomou coragem - talvez ainda restasse alguma depois daquela viagem - e pediu o número da moça.

Assim, meio que sem planejar nada, eles começaram a conversar e o relacionamento foi a mais natural das consequências. Hoje, casado com a moça do aeroporto, Jean ainda ri de como se conheceram. Precisou se iludir em outro continente para conhecer o amor em território tupiniquim.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Sonhos insignificantes traçados em avenidas desconhecidas



Virou a página do calendário. Já era julho. Sabia que tinha que fazer alguma coisa, tomar uma atitude. "Já sei", pensou Alice. Iria limpar a casa. Mas não seria uma faxina qualquer. Limparia também as coisas que normalmente deixa passar: os quadros, as janelas e os lustres.

Sentia-se calma limpando o apartamento. Era uma espécie de limpeza de espírito. Pegou a escada e começou. Ligou o som e escolheu uma de suas músicas favoritas.

Tentou concentrar em cada cisco de poeira que mal enxergava, mas era uma tarefa árdua, pelo menos naquele dia. A vida estava uma bagunça e não seria tão simples pegar um pano e sair limpando-a por aí.

Pela primeira vez estava bem consigo mesma, entretanto queria mais. Planejava uma viagem que transformaria sua vida. "Estou pronta para isso?", refletia enquanto tirava cada livro da estante para limpar. Após aquele emprego com um chefe difícil de lidar, salário injusto e horas extras não pagas, talvez fosse a hora perfeita.

O dinheiro guardado tinha que ser gasto com alguma experiência maluca. "O contrato do aluguel vence nas próximas semanas, você não tem nenhum relacionamento para ofuscar os planos, o seguro-desemprego está garantido por alguns meses... Por que não?", concluiu.

Depois da limpeza das lâmpadas de casa, Alice havia decidido. Mudaria de país. O Brasil já era pequeno demais para ela. O inglês estava "ok". Não arriscaria uma outra vida onde se comunicar fosse tarefa impossível. A trajetória era doida o bastante.

Mas qual país? Estados Unidos para se juntar aos milhões de brasileiros em busca do sonho americano? Inglaterra para se adaptar à pontualidade e arrogância dos britânicos? Austrália para tirar fotos dos cangurus e se apaixonar por algum surfista loiro com os fios até o ombro? Não se via em nenhum desses destinos clichês.

Leu em algum lugar que uma cidade do interior da Nova Zelândia tinha mil postos de trabalho para os 800 habitantes. Havia apenas uma pizzaria, um bar e uma escola. Para tentar atrair moradores, os salários oferecidos não eram ruins, cerca de dez mil reais por mês. Não fazia nem a metade disso como jornalista!

Tinha certeza que iria para o interior. Não queria mais saber de metrópole. De nada adiantava mais de 11 milhões de pessoas se passava os dias sozinha. Desejava viver um pouco em um lugar mais desenvolvido para não ter que encarar a pobreza de frente e continuar sem coragem de fazer alguma coisa para mudar.

Conseguiu o contato do administrador de Kaitangata - "tenho que me acostumar com esses nomes exóticos", pensou enquanto digitava - e escreveu um e-mail contando dos seus planos. Logo recebeu a resposta, questão de um dia. "Será muito bem-vinda", respondeu Bryan. Logo a ofereceu um trabalho de assessoramento na escola.

Alice nunca pensou em trabalhar em escolas. Não tinha muita paciência com crianças, mas para começar, por que não? Trabalhar no meio de papéis fazia parte da sua área, tentava se convencer.

"Então é isso". Comprou as passagens, despediu dos parentes distantes, dos amigos que quase não tinha, assinou a papelada quitando o aluguel e resumiu uma vida inteira dentro de uma mala.

Quando o dia da mudança chegou, não se arriscou em pensar se não iria desistir daquela maluquice. Mas não tinha jeito. No avião, com a companhia dos pensamentos se indagava: -Nunca nem fui para Nova Zelândia, para que isso?

Porém agora era uma ida sem volta; pelo menos até juntar dinheiro por lá. Chegando em Wellington, sentiu-se estranhamente plena. O calor era conhecido, o inglês não era tão difícil e a cidade era limpa, repleta de gente educada. Quase se arrependeu por não ter escolhido a capital para ficar uma temporada. Contudo não dava. Havia um ônibus esperando-lhe rumo à Kaitangata.

Não sabia o que esperar, o que conhecer, nem onde moraria ao certo. Uma corretora havia apresentado algumas fotos de casas vazias. Ainda não acreditava que o dinheiro do aluguel de um apartamento dois quartos paulista sobraria com uma casa de três quartos e quintal em Kaitangata.

Eventualmente o ônibus estacionou em uma rua vazia. Uma cidade fantasma e sem vida. Desceu um pouco desiludida, mas também esperançosa. No fundo se identificou com aquelas calçadas sem passos. Nos últimos anos, a rotina era um pouco assim também, não prometia muito. E foi assim, sem perceber nem notar, que se juntou aos milhões de brasileiros em busca do sonho do país desenvolvido. Nova Zelândia seria o seu Estados Unidos.


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Das desilusões femininas


Mais uma vez trouxe o assunto para a roda de amigas. Entre elas, Amanda podia falar sobre qualquer coisa. Ela precisava falar sobre o casamento, mas tocaria no mesmo ponto de meses atrás.

-Não sei mais o que fazer. Parece que ele não sente mais desejo por mim. 

-Mas será que não é apenas cansaço? Trabalho? Não sei.
Ninguém queria concordar com a hipótese de Amanda. Laura foi uma das que tentava confortar a amiga.

O casamento estava morno há algum tempo.  Havia sexo apenas quando Amanha se dispunha porque se fosse por Lucas, o marido, depois da janta eles iriam assistir televisão mesmo. Todas as noites.

- Acho que não. Já vi algumas coisas que ele esconde pela casa. Achei umas revistas e vi mulheres nuas não só impressas, mas também digitalizadas. O problema deve ser comigo.

-Amanda, você já tentou comprar umas coisas diferentes no sex shop? Usar lingeries provocantes? Talvez seja falta de algum estímulo.
Bruna, já com certa pena de Amanda, queria achar uma solução. Porém Bruna nem Laura era casadas, elas não conheciam aquele mal chamado rotina.

Sem muita esperança, Amanda resolveu investir na ideia do sex shop. Procurou alguns artigos que poderiam apimentar a relação. Ao mesmo tempo que se empolgava com diversas opções, sentia-se triste por não perceber o esforço recíproco do marido. 

Tudo tinha que partir dela? Era a rotina da casa: janta, faxina, filhos na escola, passeios de finais de semana e logísticas de viagens. Agora até o sexo tinha que ser iniciativa dela. Teria Amanda mal acostumado Lucas? Não pensou muito nisso.

Ela nunca fora dessas que sonhava com o casamento desde pequena. Houve fases em que ela nem cogitou vestir branco tampouco subir em um altar. Mas quando se apaixonou, essa certeza surgiu. Não esperava nenhum conto da Disney depois da lua de mel, mas achava que os homens teriam mais iniciativa. Quando começou a conversar com outras mulheres casadas do trabalho, percebeu que era unânime aquela desilusão. Depois do casamento, era a mulher quem tinha que comandar tudo, até o romantismo se ansiasse por algum devaneio. Os homens, em sua maioria, esbanjavam vantagens aos amigos, mas não se apresentavam na cama de casa.

No sex shop comprou coisas não tão polêmicas. Não queria assustar Lucas, por mais que ela soubesse que se fosse alguma daquelas mulheres nuas da revista, ele nada recusaria. Depois foi no shopping. Gastou quinhentos reais em lingeries. Estava disposta a salvar o casamento.

Com tudo em mãos, planejou os detalhes daquela noite diferente no quarto de sempre. Afinal casou com um homem que tinha nojo de motéis; não tinha como ser em outro lugar se não estivessem viajando. "Mas se fosse com aquelas mulheres..." Cortou o pensamento antes de concluí-lo.

Acendeu as velas, procurou uma playlist sensual, vestiu o corset e o fio dental e subiu no salto que só usava quando ia em festas. Esperou pelo marido. Após meia hora de quando ele deveria ter chegado, foi apenas uma mensagem no celular que chegou: "estou enrolado no trabalho, vou me atrasar".

Mais uma vez desiludida, decidiu postergar o plano e voltou para o pijama e a pantufa. Deixou a janta na mesa, mas ainda alimentava alguma esperança quanto àquela noite. Porém assim que Lucas rodou a maçaneta da porta e Amanda viu a expressão de cansaço marcando o rosto do marido, concluiu que teria que adiar um pouco mais.

Depois de jantar, louco por um doce na geladeira, Lucas não quis esperar. Eles tinham que ir ao mercado naquela hora. Como não havia nada para comer após a janta? Já eram onze da noite e ele não fazia ideia das lingeries, das velas nem das músicas que a esposa planejara. Talvez ele nem ligaria tanto. Assim, Amanda teve que trocar de roupa mais uma vez. Vestiu o jeans e foram ao mercado.

A caminho, pensava que naquele momento poderia estar aliviando a angústia daquele casamento morno. Mas já no mercado, ela concentrou nos itens que faltavam em casa. Realmente a geladeira não apresentava muitas opções. Até o caixa, não pensou mais naquilo.

Entretanto na volta para a casa a tristeza voltou a assombrá-la. Seria assim o resto do casamento? O resto da sua vida com ele? Ele sempre preferiria qualquer outra coisa a ela?

Quando viu um carro entrar em um motel a meia-noite, se perguntou se aquele homem dentro do automóvel estaria cansado como o marido. Talvez fosse o início do relacionamento. "Os homens não sentem preguiça quando acabam de conhecer uma mulher", dissera uma colega do serviço. Naquele instante teve certeza que o casamento havia lhe trazido uma coisa: desilusão. O marido não fazia questão de decidir nada, nem sobre ela.