terça-feira, 21 de junho de 2016

Visibilidade distorcida



Desiludida, saiu sem rumo. Ligou o carro com custo. Tinha economizado no combustível e insistiu em colocar álcool em vez de gasolina teimando contra o frio de São Paulo. Só queria saber de fugir. Não aguentava mais aquele comportamento.

Tinha se decepcionado com todos os homens da face da Terra. Menos com o Roberto. Ele era a última esperança do universo masculino.

"Seria só aquilo?" Se questionava. Mariana tivera vários homens em seus lençóis, e uma coisa era padrão: nenhum deles se esforçava. Não depois da paixão.

A paquera era a melhor fase, talvez por ser dependente dela, não encontrava a estabilidade com ninguém. Era tão adorável aquele vigor do macho para impressionar a fêmea. Mensagens instantâneas cheias de palavras devoradoras, rosas impecáveis, jantares a luz de velas e halls preto no hálito.

Mas passavam-se alguns meses e tudo ficava igual. Talvez com Roberto seria diferente. Tanto romance, ele tinha. Com os outros nunca encontraria isso

Já não havia ânsia. Depois da conquista, os homens não se importavam mais. Mariana não ouvia sequer um elogio depois de horas escolhendo a roupa, o perfume e passando toda aquela parafernália chamada maquiagem. Nada de mensagens trocadas, pelo menos não com ela. Agora eram apenas aqueles grupos de Whats App repletos de outras mulheres provocantes. Rosas, então? Só na floricultura. Os jantares ficaram por conta dela há tempos. Se não escolhesse o restaurante, iriam "no lugar de sempre". Como odiava esse comodismo masculino.

"Você não se importa mais!" Quantas vezes repetiu essa frase para todos eles. De nada adiantou... "Roberto havia de ser melhor que isso, não é possível!", assim a esperança ecoava.

Depois de pensar nisso tudo, se viu já na estrada. Dirigir era terapia. Ninguém lhe atrapalharia e Mariana não podia se distrair. Permitia-se apenas viajar nas letras de Roberto. Tão romântico, ele sempre foi. Ignorava as milhares de mulheres que ele conquistou. Não se atentou que ele, também depois que casou, deveria ter se acomodado no sofá de casa. Nunca pensaria nisso. Tinha que alimentar a ilusão e esperança.

À medida que as rodas giravam na pista, tentava recuperar o fôlego para outro suor masculino. Havia fugido do último. Os olhos dele não iam mais ao encontro dos dela. Antes de dar tchau, porém, deixou o sorriso para outro.

"Quem sabe um dia. Quem sabe um dia encontro um Roberto". Desejou e aumentou o som do carro.

"Todas as manhãs quando eu acordo, eu me lembro de você.
Todos os momentos do meu dia, não consigo te esquecer.
Diga meu amor o que é que eu faço
Pra não me lembrar do seu abraço, eu preciso te esquecer.
Entro no meu carro e ligo o rádio
E uma canção que traz você.
Tudo que eu vejo de bonito se parece com você.
Diga meu amor o que que eu faço,
Eu preciso arrebentar de vez
Os laços que me prendem a você.

Chuva fina no meu para-brisa,
Vento de saudade no meu peito,
Visibilidade distorcida, pela lágrima caída,
Pela dor da solidão"

Um comentário:

Débora Gomes disse...

Ei, Renata! Obrigada por visitar minhas cores. Também gostei muito do seu cantinho. Tão aconchegante quanto suas palavras e histórias. Voltarei aqui mais vezes... Um beijo! <3