segunda-feira, 20 de junho de 2016

O vazio da liberdade



Despertou inspirada. Estava disposta a fazer daquele dia um dos melhores. Levantou da cama ao som de Chico e Caetano e se viu metida à poetisa. Isso tudo porque a agonia havia terminado.

- Quando a gente termina um longo relacionamento parece que a gente tira um peso das costas, né?
Indagou Rui.

-Estranha essa sensação.
Carla mentiu.

Nunca esperou tanto por aquela liberdade. Aquele relacionamento não dava mais, sufocava seu corpo inteiro. Quando atingiu a alma, tinha certeza que era o fim.

Aquela manhã era um recomeço, uma nova chance. E ao meio-dia já estava bebendo com o amigo. Queria ficar sóbria para enxergar melhor o dia, ver cada detalhe que lhe escapulia durante aquela relação que lhe roubava toda concentração. Mas também não via a hora de sentir o outro lado da noite. Por isso, da cerveja da hora do almoço foi direto para o Mojito às cinco da tarde.

Não fazia questão de conhecer ninguém naquele dia, mas se aparecesse, Carla não recusaria um beijo estranho. Queria tirar o gosto de Gustavo da boca. Tinha que tirar. E era seu dever tocar outro corpo. Não queria nenhum resquício dele. Ela tinha que provar que nela poderia visitar quem ela permitisse, não era apenas de um. Aquele relacionamento não tinha terminado bem. 

Ela que começou o dia leve, aliviada por estar sozinha, se viu determinada a rasgar tudo o que Gustavo havia esquecido no apartamento. Rui estava ali para ajudá-la. Mas o plano mudou por volta das onze e foram se embebedar. 

Logo o resto da turma chegou. "Pelo menos dos amigos não me desfiz", pensou e lembrou de quantas vezes havia brigado por conta da possessão doentia de Gustavo. Mas dos amigos nunca iria abrir mão. Sempre soube que com eles estava segura, poderia compartilhar qualquer segredo, falar sobre qualquer um, contar piadas sem graça e rir escandalosamente. Sorrir como se não tivesse hora para voltar nem nenhum lugar para ir.

Dali saíram para dançar. Quanto tempo não fazia isso! Ao som estridente da boate, cantou, sambou e bebeu um pouco mais. Poderia viver assim. Livre, mas cercada de quem gostava e de quem gostava dela.

Mas logo o pessoal começou a ir embora. Um tinha que dar o remédio para mãe, outro tinha o cachorro para dar comida, a outra já tinha filho pequeno... E assim cada um foi voltando para a casa e a noite terminou bem antes do que Carla achou que acabaria. Até que Rui também tinha que ir; havia conhecido Renato.

Assim que entrou no carro e pôs as mãos no volante, repetiu em voz alta para se convencer:
-A noite foi boa. Aproveitei bastante.

Não sabia por quê, mas se sentiu sozinha. Não era falta de Gustavo. "Deus me livre", pensava. Mas de uma companhia. Estava naquela cidade grande sozinha há anos e por mais que o relacionamento não tivesse prestado, antes tinha um abraço para lhe esquentar.

No fim da noite ainda tinha a sensação de Gustavo próximo à ela. Não havia provado nada para ela mesma. Ninguém pareceu muito interessante. Sabia que não queria passar a vida só e ao mesmo tempo tinha preguiça de começar tudo outra vez. O processo da conquista e do namoro era trabalhoso demais.

"Quem sabe outro dia", pensou antes de adormecer. Ela que acordou com as rimas da mpb, foi dormir com Lulu Santos na cabeça.

"Hoje o tempo voa amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir
Que não há tempo que volte amor
Vamos viver tudo que há pra viver
Vamos nos permitir"

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