quarta-feira, 15 de junho de 2016

O primeiro fim



Ao se afogar em lágrimas e se emudecer pelos soluços, desolada, se virou para a mãe e deu som para aquele pensamento que não saía da cabeça desde então:

- Eu iria casar com ele!

Era visível na mãe o olhar de dó. Mas sabia que aquela seria apenas a primeira experiência da filha no amor, e que o universo masculino infelizmente ainda lhe forneceria muitas desilusões.

- Talvez não era para ser, filha.

Foi tudo que conseguiu falar. Aquela frase pronta diante do sofrimento imensurável da filha. Sabia que a dor deveria ser intensa, pois naqueles tempos confissões eram difíceis. Os ares rebeldes da adolescência não davam sossego. Mas ali não tinha muito para onde recorrer. O pai nunca admitiu chorar por conta de homem. Talvez ele só enxergasse a situação dessa maneira, não conseguir ver ali o fim do primeiro amor. Afinal, quem nunca passou passou por isso?

Não queria admitir, mas a filha já previa o fim. Tanto que só chorava ao ver o então amado. Aquele relacionamento tinha data de término. Uma decisão de poder atravessar o atlântico pela primeira vez ainda era maior que o relacionamento. Viagens sempre foram seus maiores sonhos e melhores experiências, mas saberia disso apenas algum tempo depois.

Junto àquela experiência estrangeira, havia uma mudança mais definitiva. Apenas duas horas e meia de distância, mas que são infinitas horas de distância no mundo adolescente. Talvez esses dois acontecimentos do destino haviam se somado às lágrimas dela. E isso tenha antecipado o fim.

Agora nem se lembra que dia da semana era, porém se recorda que teria aula no dia seguinte. E as palavras ditas naquele telefonema são inesquecíveis:

- Você está pensando em terminar? As palavras soaram cheias de medo, mas já sentindo a predisposição dele.

-Sim.

-Mas por quê?

Assim, bem nesse momento, é que as lembranças se esgotam. Não se lembra qual o dia do ano comemorariam o primeiro aniversário. Só se recorda da importância da data: um ano de namoro. Datas sempre lhe foram importantes.  Imagine então para um garota de 16 anos.

Nem se lembra da voz dele, receosa, mas com certa convicção. As duas noites seguidas em claro e o pranto inconsolável é o que lhe marcou. As aulas nos dois dias seguintes se passaram normalmente, mas tudo  o que ela fazia era chorar.

Como viveria sem ele? Era com ele que fazia planos. Tinham tanto em comum. Tantas cartas escritas, juras de amor prometidas, desenhos rabiscados, longos beijos trocados, e as primeiras carícias...

Foi com ele que descobriu a desilusão. Ou melhor, sem ele. Passados os dois dias fazia questão de se mostrar por aí feliz. Mas só ela sabia que era um sorriso triste, vazio, sem nada para oferecer. Atravessou o atlântico e a tristeza ainda lhe corroía os ossos, junto àquele frio nunca antes sentido. Era tudo novidade.

A vida com 16 anos parecia tão dramática, menos irracional. Talvez a dureza dos anos e experiências posteriores lhe tinha deixado de alguma forma mais forte. Demorou demais para esquecer daquele cabelo cacheado, óculos preto e do personagem que ele criou para conquistá-la: o Teddy. Ele aparecia nas cartas juntos às palavras doces de um adolescente apaixonado.

Anos se passaram e outra paixão arrebatadora lhe pegou. Logo transformou-se em amor. Mais uma vez tinha certeza do mundo. Mas mal sabia que o criador do Teddy apareceria novamente, quase 10 anos depois.

Quando o viu, sorriu. Esperava por um cumprimento educado, meias palavras sem graça de um relacionamento mal acabado. Tudo que recebeu foi um olhar desviado. Ele tinha tanto significado na sua história, mas ele não demonstrava tal reciprocidade. Mesmo após todo esse tempo ele não lhe deu satisfações. Foi como aquele telefonema traumático de aniversário de um ano de relacionamento. Mas o engraçado da vida foi que a dor e o vazio não vieram, e sim a pena por ele ter que fingir que nada havia acontecido entre dois enquanto sua parceira a olhava desconfiada, pois deveria saber de quem se tratava.

"Não vejo mais você faz tanto tempo. Que vontade que eu sinto. De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços. É verdade, eu não minto.
E nesse desespero em que me vejo. Já cheguei a tal ponto de me trocar diversas vezes por você só pra ver se te encontro.
(...)
Agora, que faço eu da vida sem você? Você não me ensinou a te esquecer. Você só me ensinou a te querer. E te querendo eu vou tentando te encontrar. Vou me perdendo. Buscando em outros braços seus abraços. Perdido no vazio de outros passos. Do abismo em que você se retirou. E me atirou e me deixou aqui sozinho."

Hoje, nem mesmo a música, com a qual derramou várias lágrimas por ele, significa alguma coisa. Pois o primeiro amor foi assim, arrebatador, mas esquecível.







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