segunda-feira, 27 de junho de 2016

O milagre da queda de uma cachoeira




Não é possível entender o motivo das coisas, mas senti-las é uma obrigação. Pelo menos para Fernanda era. E debaixo da queda da cachoeira, tudo que sentia era a água gelada lavando a alma, mandando embora todas as coisas ruim da rotina.

Todas as vezes que Fernanda ia para aquele cidade do interior de Goiás eram como um ritual de purificação. Não sabia se era o ritmo pacato, a simplicidade das pessoas ou o contato direto com a natureza. Talvez fosse a soma de tudo isso.

Gostava tanto de lá que foi com os pais na infância, com o primeiro namorado na adolescência e com o marido já adulta. Mal podia esperar para levar o filho. Por conta da gravidez de risco não pegou estrada. Preferiu seguir a orientação médica. A dor do parto havia passado há alguns meses, mas o incômodo da amamentação ainda rasgava o peito. Não bastava a depressão pós-parto que tivera. Tentou gostar, leu todos os artigos que encontrou, perguntou para a obstetra, mas tudo que conseguia fazer era chorar junto com o bebê que gritava alto pedindo leite.

Quando o marido sugeriu um passeio até a cidade depois de partilhar a angústia da parceira, Fernanda segurou as lágrimas se arriscavam, mas agora seriam por alívio. Era disso que precisava. Depois da jornada de um recém-nascido, ela precisava renascer naquelas águas correntes. Água doce era mais próxima de casa que a salgada. Além do mais, praia sempre foi algo esporádico. Mas cachoeira não. Cinco vezes ao ano ainda não eram suficientes. E por conta da gravidez passou os quinze meses anteriores ao início daquela aventura chamada procriação longe do gelo das águas.

Reservaram a pousada e arrumaram a mala. Fernanda, com o sorriso no rosto, ia na parte detrás do carro, acompanhando o bebê, enquanto o marido dirigia. Não pegaram estrada de terra no mesmo dia. O esposo insistiu para que descansassem antes e só na próxima manhã fizessem os passeios rumo àquelas quedas.

Durante a madrugada, o filho pediu peito. Mas na cidadezinha, Fernanda já não sentia tanta dor. Ela se concentrou no sol tímido e conseguiu não expressar incômodo.

Finalmente quando a madrugada virou dia, a família seguiu rumo ao conforto da mãe. A trilha de quinhentos metros nunca foi tão longa. Com recém-nascido não podiam ir a cachoeiras afastadas nem inóspitas. Mas ela se contentou com a pequena queda e a fazenda descaracterizada de simplicidade, culpa da infra-estrutura percebida já no momento em que atravessaram a porteira.

Chegando no rio, Fernanda entregou o neném ao marido e mergulhou ignorando os 18 graus das sete horas da manhã. Quando sentiu a água, muita coisa passou pela sua cabeça. Os passeios por ali, as caminhadas, a família, e enfim, o filho. 

Logo que emergiu e avistou o esposo com o neném no colo, teve uma certeza: precisava batizar a prole.  Nunca foi religiosa, mas aquele era seu ritual de purificação. E ao molhar o neném, ele chorou e ela sorriu. Eles  começaram a se entender ali. 


Um comentário:

Larissa Fonseca disse...

Quanto sentimento... quanta beleza e verdade nesse texto! Gostei da fuga do senso-comum, daquela certeza de que todos os sentimentos maternais são os mesmos. Gostei da verdade e da sensibilidade nas suas palavras!