quinta-feira, 16 de junho de 2016

O início de um erro


Ricardo, experiente como era em relacionamentos, tentava se distanciar de Marcela. Afinal, as coisas andavam bem em casa, como nunca antes estara. Mas havia algo em Marcela. Não conseguia discernir o quê. Só sabia que o nome dela estava em sua boca, mais que o tolerável, e já não conseguia disfarçar.

Marcela, por outro lado, reprimia o sentimento. Não queria aceitar aquele ar de mistério de Ricardo e se fingia de boba, desconversava. Não gostava de encrenca e ali sabia que era um caminho sem volta.

Durante as reuniões da firma, happy hours e na frente dos outros, conversavam tranquilamente. Porém tanto Ricardo quanto Marcela escondiam o coração acelerado, as mãos geladas e tentavam disfarçar as bochechas rosadas. Pelo menos Marcela sabia do perigo da cor branca na pele. Qualquer coisa era motivo para ficar vermelha. Ricardo era um deles.

A convivência era sinônimo de perigo. Em grupo a relação era segura, Ricardo se continha, mas sabia que não havia mais como se segurar, até que soltou, como um susto, em direção de Marcela:

- Vamos tomar uma cerveja qualquer dia?
 Logo se arrependeu e com medo de uma negativa, emendou: 

-Gostaria de falar daquele projeto que você apresentou outro dia. Tenho umas ideias das quais poderíamos discutir.

Pronto, estava de volta na zona de segurança, caso algo desse errado.

Marcela já se sentia rosada. O rosto ardia de calor. Mas o coração acelerado respondeu antes que a boca pudesse refletir um pouco, pois via o anel na mão esquerda de Ricardo sempre que passavam pensamentos assim na cabeça:

- Claro, vamos combinar.

-Se não beber, podemos tomar um café aqui na esquina. Com esse frio acho que combinaria mais.
Mais uma vez se envolveu em um recurso de segurança. Muitos conhecidos passariam por ali. Cerveja talvez fosse informal demais e o risco seria maior.

-Cerveja está bom, pode ser depois do expediente?
Marcela mal escondeu a voz trêmula. O que estava fazendo? Nunca se viu no papel de amante e já se enxergava dessa maneira.

-Sim.
Foi tudo que ele conseguiu falar.

Assim Ricardo voltou para sua baia. Nunca quis se envolver daquela forma. Já estava comprometido. Teve uma experiência semelhante, mas preferira terminar tudo antes. Dessa vez não. Gostava do que tinha, havia finalmente construído um lar para chamar de seu. Nos finais de semana gostava de ler, cozinhar, assistir tv e abraçar a mulher. Mas não via saída para essa paixão. Quando achava que a vida já lhe tinha dado problemas demais... Ele acabara de arrumar outro por pura displicência e descontrole.

Nenhum dos dois via a hora do relógio colocar os ponteiros no rumo do número seis. E assim, querendo e não querendo, as dezoito horas chegaram. Juntos pegaram o elevador, ainda com os colegas ao redor, conversavam sobre o trabalho, coisas de rotina. Nada de novo.

Mas ali, da porta do prédio do escritório ao bar, o clima começou a mudar. Ricardo começou a pôr em prática o pecado logo antes das seis. A mulher já estava avisada do retorno tardio para casa por conta de uma reunião que se prolongaria. Marcela, sabendo da sua futura condição, prometeu para si mesma que seria apenas uma aventura, que continuaria a conhecer outras pessoas. Aquilo não era para o bico dela, mesmo querendo experimentar Ricardo.

Já no bar falaram de tudo, menos de trabalho. Ambos sabiam que precisavam de um pretexto para o início desse erro, ainda mais na frente de conhecidos. Porém lá, agora, era apenas os dois. Conversavam sobre livros, filmes e música. Já sabiam que tinham muito em comum, pelo menos quanto à cultura. Até riram do sonho compartilhado em ter uma banda de rock.

Ali se esqueciam de fatores essenciais para não começarem uma história juntos: a diferença de idades e o anel dourado que Ricardo não tirava. Afinal, entre eles, a mão esquerda não tinha muito significado e os números nada mais diziam diante tantos interesses semelhantes.

Depois de alguns copos de cerveja, começaram os toques descontraídos. Por uma piada, por um reforço de argumento, tudo era desculpa para se tocarem. O efeito do álcool era o determinante fatal para concretizar o desejo reprimido. Nem se lembram qual foi o assunto decisivo para tornar tudo real, mas o sorriso sem graça de Ricardo e o olhar tímido de Marcela em certo momento se encontraram. 

O beijo foi inevitável. Ela podia sentir o bigode experiente na sua pele jovem, e enquanto o calor ardia, o corpo dele respondia. Tinham que sair dali. Aquele desejo era urgente demais para se arrepender.

Não havia tempo para pensar. Ele já tinha no rosto manchas de batom, e ela, o cheiro do perfume dele. Eram apenas os dois determinados a se descobrirem sem refletir sobre as consequências. Era o início de um adultério por parte de Ricardo e um caso por parte de Marcela.

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