quinta-feira, 23 de junho de 2016

Dos homens aos bichos


Roberta sempre foi ingênua. A vida não lhe apresentou a maturidade do mundo. Quando o mal se aproximou, ela  virou a esquina. Assim os dias se passaram, mas sem demora a família observou que a cabeça dela não funcionava como as demais.

Os parentes costumavam dizer que era "cabeça de vento". "Provavelmente ela tem algum problema", pensavam sem muita coragem para verbalizar. Porém Roberta não ligava, muito menos ouvia. Sua ingenuidade não ligava os pontos e não conseguia interpretar os sinais. Ela nunca acordava. A vida não lhe exigiu isso.

Esse seu jeito avoado, por assim dizer, atraiu Mário. Ele era outro que não se sabe como se tornou adulto. Obviamente a afinidade foi mútua. Enquanto Roberta formava em qualquer curso do qual ouvir falar, Mário sobrevivia graças a uma graninha como vendedor. Nas horas vagas, enquanto ela assistia à Snapchat alheio, ele jogava videogame.

Mas os dias correram tanto até que viraram meses e como um relâmpago, passaram juntos alguns anos. Roberta, mesmo ingênua que era, não aguentava mais a preguiça de Mário. Ele não aspirava a nada além do sofá e da comida, sempre quentinha, da mãe.

Assim, meio de supetão, mas claro que ao ritmo de Roberta, após algumas conversas e exemplos, decidiu que era hora de melhorar a situação e depois de formar, resolveu criar um negócio com a família. Quem nunca esperou pelo melhor dela, surpreendeu-se. A empresa prosperou. Mas Mário continuava entre balcão da loja e o console dos jogos.

Roberta não aguentou. Gostava dele, mas aquela falta de energia e ânsia pelo futuro lhe incomodou. Eram os últimos dias de Mário com ela.

Ela só não contava com o fato de que nem todos os homens eram como Mário, o que era no mínimo irônico por esse ter sido justamente o motivo do término. Os homens que conheceu não suportavam o jeito de Roberta. Eles tinham vontade de lhe sacudir para ver se ela despertava e enxergava o implícito. Não tinha jeito.

Roberta não entendia por que nenhuma relação após Mário não prosperar. Tentou e insistiu até cansar das longas madrugadas sozinha em algum lugar badalado da cidade. Ao mesmo tempo que se sentia sozinha em casa, não sustentava a ideia de conhecer alguém que lhe puxasse para além dali, de onde estava confortável e feliz.

Até que teve a brilhante reflexão em um sábado de Zorra Total: um gatinho. Era mais de gato que de cachorro. A ausência de ação que teve com as pessoas em volta desapareceu quando decidiu pesquisar raça, preço, doação, e como manter o novo membro da futura família desfalcada.

Foi decidida ao abrigo de animais com a foto daquele filhote que lhe cortou o coração pela internet. Parecia tão sozinho e perdido como ela. Não precisaria mais ouvir críticas, aguentar chatices nem ficar sozinha.

Pronto, a caminho para casa se tornara mais uma daquelas "mães". Não precisava de um homem para fazer um filho, seu herdeiro já tinha nome e personalidade. Não precisava doar nada para os carentes de alimento ou roupa de frio, mas necessitava gastar com a ração mais cara do petshop. E assim, antes de girar a chave na fechadura de casa, ela havia se tornado mais uma daqueles que preferem animal a gente.

Um comentário:

Thamires Figueiredo disse...

E garanto, a melhor decisão que ela tomou!

Beijos, querida!