sexta-feira, 17 de junho de 2016

Depois dos trinta e poucos anos



Sabrina tivera várias fases enquanto crescia. Uma hora era patricinha, outra, da turma do punk. Quando se enxergou no espelho mulher, percebeu que as fases iam além do estilo da roupa e do gosto musical. Mandou mensagem de voz por Whats App para a amiga, determinada em dar alguma satisfação que ela não havia pedido:

-Mi, estou bem sozinha. Vou aproveitar a vida sem depender de encontros alheios.

Mirela sem entender nada, mas já prevendo alguma loucura por parte de Sabrina resumiu suas palavras em outra mensagem de voz:

-Você faz bem. É importante se encontrar e se amar para valer.

Sem mais nem menos a conversa parou ali. Mirela continuou o relatório que fazia no trabalho. Já eram dezesseis horas e o chefe tinha sido bem especifico quanto ao deadline: dezesseis e trinta! Não havia tempo para as lamentações de Sabrina.

Mas o carnaval chegava e Sabrina que tinha acabado de sair de um relacionamento de quatro anos queria respirar um ar leve, sem arrependimentos ou desilusões. Tinha deixado a fase do comprometimento para trás e estava em busca de aventuras. Isso não necessariamente envolvia um outro alguém.

Quando Mirela finalmente entregou o relatório ao chefe, saiu às pressas ao encontro de Sabrina. Haviam programado aquela viagem há menos de um mês, logo depois do Rafael ter sido apagado no repertório da amiga. Estavam prontas para curtir o carnaval de Ouro Preto.

Na cidade histórica e de ladeiras, elas, que eram do planalto central, se encantaram. As marchinhas já podiam ser ouvidas, a movimentação da cidade era característica de festa. Estavam prontas para aquele feriado, afinal o trabalho consumia Mirela, e Sabrina havia esquecido sua identidade com Rafael, logo no início do namoro; precisavam de um recomeço.

Assim que chegaram em Ouro Preto, foram em direção ao hotel. República compartilhada não era mais para elas. Com trinta e poucos anos nas costas era praticamente impossível a possibilidade de dividir uma casa com dez estudantes de graduação.

- Agora vamos curtir, pelo amor de Deus! Precisamos beber!
Disse Sabrina eufórica depois de terem tirado um cochilo. Aquela viagem de carro durou cinco horas.

E assim saíram, esperançosas por um feriado inesquecível. Mirela não queria dizer, mas só sentia o fedor de mijo misturado com cachaça barata na rua. Sabrina que tinha jurado amor a si mesma e queria provar que era autossuficiente emocionalmente só via garotos na busca disfarçada por homens.

Mesmo assim ignoraram os fatos e cantaram com o coro das marchinhas. Juntaram-se à turma dos bêbados e riram das pseudo amizades que fizeram na subida da ladeira.

Logo depois da meia-noite, as duas não sentiam mais as pernas. Com o corpo cheio de dores e a cabeça um pouco mais lúcida, Sabrina disse o que queria evitar durante todo o feriado:

- Vamos para o hotel agora? Acho que estamos velhas para isso.

Meio que desconversando, mas concordando cem porcento, Mirela consentiu:

-É, acho que deu por hoje.

No outro dia as duas acordaram cedo enquanto a cidade antiga, mas nesses dias jovem, dormia. Não eram nem nove horas da manhã.

-Mi, acho que não dou conta de mais um dia de festa. Estou cansada dessa vida de papos fúteis, beijos fugazes e álcool para disfarçar a rotina.

-Achei que fosse só eu. Só senti o mal cheiro e vi crianças em uma fase da qual já passamos. Precisamos encontrar outra válvula de escape. Essa não é mais a nossa praia.

Logo depois de tomarem o café-da-manhã, arrumaram as malas que mal haviam sido desfeitas e voltaram para Brasília. Quando chegaram na capital, queriam apenas descansar e não falar mais sobre esse carnaval. 

Mirela deitou em sua cama e foi procurar por um novo hobby no computador: aula de artesanato, rapel ou outra pós-graduação? Já Sabrina que deveria aprender um pouco de independência com a melhor amiga, quando pisou em casa se sentiu sozinha. Logo depois de fechar a porta daquele apartamento todo branco decidiu que era hora de se casar e constituir uma família.

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