segunda-feira, 27 de junho de 2016

O milagre da queda de uma cachoeira




Não é possível entender o motivo das coisas, mas senti-las é uma obrigação. Pelo menos para Fernanda era. E debaixo da queda da cachoeira, tudo que sentia era a água gelada lavando a alma, mandando embora todas as coisas ruim da rotina.

Todas as vezes que Fernanda ia para aquele cidade do interior de Goiás eram como um ritual de purificação. Não sabia se era o ritmo pacato, a simplicidade das pessoas ou o contato direto com a natureza. Talvez fosse a soma de tudo isso.

Gostava tanto de lá que foi com os pais na infância, com o primeiro namorado na adolescência e com o marido já adulta. Mal podia esperar para levar o filho. Por conta da gravidez de risco não pegou estrada. Preferiu seguir a orientação médica. A dor do parto havia passado há alguns meses, mas o incômodo da amamentação ainda rasgava o peito. Não bastava a depressão pós-parto que tivera. Tentou gostar, leu todos os artigos que encontrou, perguntou para a obstetra, mas tudo que conseguia fazer era chorar junto com o bebê que gritava alto pedindo leite.

Quando o marido sugeriu um passeio até a cidade depois de partilhar a angústia da parceira, Fernanda segurou as lágrimas se arriscavam, mas agora seriam por alívio. Era disso que precisava. Depois da jornada de um recém-nascido, ela precisava renascer naquelas águas correntes. Água doce era mais próxima de casa que a salgada. Além do mais, praia sempre foi algo esporádico. Mas cachoeira não. Cinco vezes ao ano ainda não eram suficientes. E por conta da gravidez passou os quinze meses anteriores ao início daquela aventura chamada procriação longe do gelo das águas.

Reservaram a pousada e arrumaram a mala. Fernanda, com o sorriso no rosto, ia na parte detrás do carro, acompanhando o bebê, enquanto o marido dirigia. Não pegaram estrada de terra no mesmo dia. O esposo insistiu para que descansassem antes e só na próxima manhã fizessem os passeios rumo àquelas quedas.

Durante a madrugada, o filho pediu peito. Mas na cidadezinha, Fernanda já não sentia tanta dor. Ela se concentrou no sol tímido e conseguiu não expressar incômodo.

Finalmente quando a madrugada virou dia, a família seguiu rumo ao conforto da mãe. A trilha de quinhentos metros nunca foi tão longa. Com recém-nascido não podiam ir a cachoeiras afastadas nem inóspitas. Mas ela se contentou com a pequena queda e a fazenda descaracterizada de simplicidade, culpa da infra-estrutura percebida já no momento em que atravessaram a porteira.

Chegando no rio, Fernanda entregou o neném ao marido e mergulhou ignorando os 18 graus das sete horas da manhã. Quando sentiu a água, muita coisa passou pela sua cabeça. Os passeios por ali, as caminhadas, a família, e enfim, o filho. 

Logo que emergiu e avistou o esposo com o neném no colo, teve uma certeza: precisava batizar a prole.  Nunca foi religiosa, mas aquele era seu ritual de purificação. E ao molhar o neném, ele chorou e ela sorriu. Eles  começaram a se entender ali. 


quinta-feira, 23 de junho de 2016

Dos homens aos bichos


Roberta sempre foi ingênua. A vida não lhe apresentou a maturidade do mundo. Quando o mal se aproximou, ela  virou a esquina. Assim os dias se passaram, mas sem demora a família observou que a cabeça dela não funcionava como as demais.

Os parentes costumavam dizer que era "cabeça de vento". "Provavelmente ela tem algum problema", pensavam sem muita coragem para verbalizar. Porém Roberta não ligava, muito menos ouvia. Sua ingenuidade não ligava os pontos e não conseguia interpretar os sinais. Ela nunca acordava. A vida não lhe exigiu isso.

Esse seu jeito avoado, por assim dizer, atraiu Mário. Ele era outro que não se sabe como se tornou adulto. Obviamente a afinidade foi mútua. Enquanto Roberta formava em qualquer curso do qual ouvir falar, Mário sobrevivia graças a uma graninha como vendedor. Nas horas vagas, enquanto ela assistia à Snapchat alheio, ele jogava videogame.

Mas os dias correram tanto até que viraram meses e como um relâmpago, passaram juntos alguns anos. Roberta, mesmo ingênua que era, não aguentava mais a preguiça de Mário. Ele não aspirava a nada além do sofá e da comida, sempre quentinha, da mãe.

Assim, meio de supetão, mas claro que ao ritmo de Roberta, após algumas conversas e exemplos, decidiu que era hora de melhorar a situação e depois de formar, resolveu criar um negócio com a família. Quem nunca esperou pelo melhor dela, surpreendeu-se. A empresa prosperou. Mas Mário continuava entre balcão da loja e o console dos jogos.

Roberta não aguentou. Gostava dele, mas aquela falta de energia e ânsia pelo futuro lhe incomodou. Eram os últimos dias de Mário com ela.

Ela só não contava com o fato de que nem todos os homens eram como Mário, o que era no mínimo irônico por esse ter sido justamente o motivo do término. Os homens que conheceu não suportavam o jeito de Roberta. Eles tinham vontade de lhe sacudir para ver se ela despertava e enxergava o implícito. Não tinha jeito.

Roberta não entendia por que nenhuma relação após Mário não prosperar. Tentou e insistiu até cansar das longas madrugadas sozinha em algum lugar badalado da cidade. Ao mesmo tempo que se sentia sozinha em casa, não sustentava a ideia de conhecer alguém que lhe puxasse para além dali, de onde estava confortável e feliz.

Até que teve a brilhante reflexão em um sábado de Zorra Total: um gatinho. Era mais de gato que de cachorro. A ausência de ação que teve com as pessoas em volta desapareceu quando decidiu pesquisar raça, preço, doação, e como manter o novo membro da futura família desfalcada.

Foi decidida ao abrigo de animais com a foto daquele filhote que lhe cortou o coração pela internet. Parecia tão sozinho e perdido como ela. Não precisaria mais ouvir críticas, aguentar chatices nem ficar sozinha.

Pronto, a caminho para casa se tornara mais uma daquelas "mães". Não precisava de um homem para fazer um filho, seu herdeiro já tinha nome e personalidade. Não precisava doar nada para os carentes de alimento ou roupa de frio, mas necessitava gastar com a ração mais cara do petshop. E assim, antes de girar a chave na fechadura de casa, ela havia se tornado mais uma daqueles que preferem animal a gente.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Visibilidade distorcida



Desiludida, saiu sem rumo. Ligou o carro com custo. Tinha economizado no combustível e insistiu em colocar álcool em vez de gasolina teimando contra o frio de São Paulo. Só queria saber de fugir. Não aguentava mais aquele comportamento.

Tinha se decepcionado com todos os homens da face da Terra. Menos com o Roberto. Ele era a última esperança do universo masculino.

"Seria só aquilo?" Se questionava. Mariana tivera vários homens em seus lençóis, e uma coisa era padrão: nenhum deles se esforçava. Não depois da paixão.

A paquera era a melhor fase, talvez por ser dependente dela, não encontrava a estabilidade com ninguém. Era tão adorável aquele vigor do macho para impressionar a fêmea. Mensagens instantâneas cheias de palavras devoradoras, rosas impecáveis, jantares a luz de velas e halls preto no hálito.

Mas passavam-se alguns meses e tudo ficava igual. Talvez com Roberto seria diferente. Tanto romance, ele tinha. Com os outros nunca encontraria isso

Já não havia ânsia. Depois da conquista, os homens não se importavam mais. Mariana não ouvia sequer um elogio depois de horas escolhendo a roupa, o perfume e passando toda aquela parafernália chamada maquiagem. Nada de mensagens trocadas, pelo menos não com ela. Agora eram apenas aqueles grupos de Whats App repletos de outras mulheres provocantes. Rosas, então? Só na floricultura. Os jantares ficaram por conta dela há tempos. Se não escolhesse o restaurante, iriam "no lugar de sempre". Como odiava esse comodismo masculino.

"Você não se importa mais!" Quantas vezes repetiu essa frase para todos eles. De nada adiantou... "Roberto havia de ser melhor que isso, não é possível!", assim a esperança ecoava.

Depois de pensar nisso tudo, se viu já na estrada. Dirigir era terapia. Ninguém lhe atrapalharia e Mariana não podia se distrair. Permitia-se apenas viajar nas letras de Roberto. Tão romântico, ele sempre foi. Ignorava as milhares de mulheres que ele conquistou. Não se atentou que ele, também depois que casou, deveria ter se acomodado no sofá de casa. Nunca pensaria nisso. Tinha que alimentar a ilusão e esperança.

À medida que as rodas giravam na pista, tentava recuperar o fôlego para outro suor masculino. Havia fugido do último. Os olhos dele não iam mais ao encontro dos dela. Antes de dar tchau, porém, deixou o sorriso para outro.

"Quem sabe um dia. Quem sabe um dia encontro um Roberto". Desejou e aumentou o som do carro.

"Todas as manhãs quando eu acordo, eu me lembro de você.
Todos os momentos do meu dia, não consigo te esquecer.
Diga meu amor o que é que eu faço
Pra não me lembrar do seu abraço, eu preciso te esquecer.
Entro no meu carro e ligo o rádio
E uma canção que traz você.
Tudo que eu vejo de bonito se parece com você.
Diga meu amor o que que eu faço,
Eu preciso arrebentar de vez
Os laços que me prendem a você.

Chuva fina no meu para-brisa,
Vento de saudade no meu peito,
Visibilidade distorcida, pela lágrima caída,
Pela dor da solidão"

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O vazio da liberdade



Despertou inspirada. Estava disposta a fazer daquele dia um dos melhores. Levantou da cama ao som de Chico e Caetano e se viu metida à poetisa. Isso tudo porque a agonia havia terminado.

- Quando a gente termina um longo relacionamento parece que a gente tira um peso das costas, né?
Indagou Rui.

-Estranha essa sensação.
Carla mentiu.

Nunca esperou tanto por aquela liberdade. Aquele relacionamento não dava mais, sufocava seu corpo inteiro. Quando atingiu a alma, tinha certeza que era o fim.

Aquela manhã era um recomeço, uma nova chance. E ao meio-dia já estava bebendo com o amigo. Queria ficar sóbria para enxergar melhor o dia, ver cada detalhe que lhe escapulia durante aquela relação que lhe roubava toda concentração. Mas também não via a hora de sentir o outro lado da noite. Por isso, da cerveja da hora do almoço foi direto para o Mojito às cinco da tarde.

Não fazia questão de conhecer ninguém naquele dia, mas se aparecesse, Carla não recusaria um beijo estranho. Queria tirar o gosto de Gustavo da boca. Tinha que tirar. E era seu dever tocar outro corpo. Não queria nenhum resquício dele. Ela tinha que provar que nela poderia visitar quem ela permitisse, não era apenas de um. Aquele relacionamento não tinha terminado bem. 

Ela que começou o dia leve, aliviada por estar sozinha, se viu determinada a rasgar tudo o que Gustavo havia esquecido no apartamento. Rui estava ali para ajudá-la. Mas o plano mudou por volta das onze e foram se embebedar. 

Logo o resto da turma chegou. "Pelo menos dos amigos não me desfiz", pensou e lembrou de quantas vezes havia brigado por conta da possessão doentia de Gustavo. Mas dos amigos nunca iria abrir mão. Sempre soube que com eles estava segura, poderia compartilhar qualquer segredo, falar sobre qualquer um, contar piadas sem graça e rir escandalosamente. Sorrir como se não tivesse hora para voltar nem nenhum lugar para ir.

Dali saíram para dançar. Quanto tempo não fazia isso! Ao som estridente da boate, cantou, sambou e bebeu um pouco mais. Poderia viver assim. Livre, mas cercada de quem gostava e de quem gostava dela.

Mas logo o pessoal começou a ir embora. Um tinha que dar o remédio para mãe, outro tinha o cachorro para dar comida, a outra já tinha filho pequeno... E assim cada um foi voltando para a casa e a noite terminou bem antes do que Carla achou que acabaria. Até que Rui também tinha que ir; havia conhecido Renato.

Assim que entrou no carro e pôs as mãos no volante, repetiu em voz alta para se convencer:
-A noite foi boa. Aproveitei bastante.

Não sabia por quê, mas se sentiu sozinha. Não era falta de Gustavo. "Deus me livre", pensava. Mas de uma companhia. Estava naquela cidade grande sozinha há anos e por mais que o relacionamento não tivesse prestado, antes tinha um abraço para lhe esquentar.

No fim da noite ainda tinha a sensação de Gustavo próximo à ela. Não havia provado nada para ela mesma. Ninguém pareceu muito interessante. Sabia que não queria passar a vida só e ao mesmo tempo tinha preguiça de começar tudo outra vez. O processo da conquista e do namoro era trabalhoso demais.

"Quem sabe outro dia", pensou antes de adormecer. Ela que acordou com as rimas da mpb, foi dormir com Lulu Santos na cabeça.

"Hoje o tempo voa amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir
Que não há tempo que volte amor
Vamos viver tudo que há pra viver
Vamos nos permitir"

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Depois dos trinta e poucos anos



Sabrina tivera várias fases enquanto crescia. Uma hora era patricinha, outra, da turma do punk. Quando se enxergou no espelho mulher, percebeu que as fases iam além do estilo da roupa e do gosto musical. Mandou mensagem de voz por Whats App para a amiga, determinada em dar alguma satisfação que ela não havia pedido:

-Mi, estou bem sozinha. Vou aproveitar a vida sem depender de encontros alheios.

Mirela sem entender nada, mas já prevendo alguma loucura por parte de Sabrina resumiu suas palavras em outra mensagem de voz:

-Você faz bem. É importante se encontrar e se amar para valer.

Sem mais nem menos a conversa parou ali. Mirela continuou o relatório que fazia no trabalho. Já eram dezesseis horas e o chefe tinha sido bem especifico quanto ao deadline: dezesseis e trinta! Não havia tempo para as lamentações de Sabrina.

Mas o carnaval chegava e Sabrina que tinha acabado de sair de um relacionamento de quatro anos queria respirar um ar leve, sem arrependimentos ou desilusões. Tinha deixado a fase do comprometimento para trás e estava em busca de aventuras. Isso não necessariamente envolvia um outro alguém.

Quando Mirela finalmente entregou o relatório ao chefe, saiu às pressas ao encontro de Sabrina. Haviam programado aquela viagem há menos de um mês, logo depois do Rafael ter sido apagado no repertório da amiga. Estavam prontas para curtir o carnaval de Ouro Preto.

Na cidade histórica e de ladeiras, elas, que eram do planalto central, se encantaram. As marchinhas já podiam ser ouvidas, a movimentação da cidade era característica de festa. Estavam prontas para aquele feriado, afinal o trabalho consumia Mirela, e Sabrina havia esquecido sua identidade com Rafael, logo no início do namoro; precisavam de um recomeço.

Assim que chegaram em Ouro Preto, foram em direção ao hotel. República compartilhada não era mais para elas. Com trinta e poucos anos nas costas era praticamente impossível a possibilidade de dividir uma casa com dez estudantes de graduação.

- Agora vamos curtir, pelo amor de Deus! Precisamos beber!
Disse Sabrina eufórica depois de terem tirado um cochilo. Aquela viagem de carro durou cinco horas.

E assim saíram, esperançosas por um feriado inesquecível. Mirela não queria dizer, mas só sentia o fedor de mijo misturado com cachaça barata na rua. Sabrina que tinha jurado amor a si mesma e queria provar que era autossuficiente emocionalmente só via garotos na busca disfarçada por homens.

Mesmo assim ignoraram os fatos e cantaram com o coro das marchinhas. Juntaram-se à turma dos bêbados e riram das pseudo amizades que fizeram na subida da ladeira.

Logo depois da meia-noite, as duas não sentiam mais as pernas. Com o corpo cheio de dores e a cabeça um pouco mais lúcida, Sabrina disse o que queria evitar durante todo o feriado:

- Vamos para o hotel agora? Acho que estamos velhas para isso.

Meio que desconversando, mas concordando cem porcento, Mirela consentiu:

-É, acho que deu por hoje.

No outro dia as duas acordaram cedo enquanto a cidade antiga, mas nesses dias jovem, dormia. Não eram nem nove horas da manhã.

-Mi, acho que não dou conta de mais um dia de festa. Estou cansada dessa vida de papos fúteis, beijos fugazes e álcool para disfarçar a rotina.

-Achei que fosse só eu. Só senti o mal cheiro e vi crianças em uma fase da qual já passamos. Precisamos encontrar outra válvula de escape. Essa não é mais a nossa praia.

Logo depois de tomarem o café-da-manhã, arrumaram as malas que mal haviam sido desfeitas e voltaram para Brasília. Quando chegaram na capital, queriam apenas descansar e não falar mais sobre esse carnaval. 

Mirela deitou em sua cama e foi procurar por um novo hobby no computador: aula de artesanato, rapel ou outra pós-graduação? Já Sabrina que deveria aprender um pouco de independência com a melhor amiga, quando pisou em casa se sentiu sozinha. Logo depois de fechar a porta daquele apartamento todo branco decidiu que era hora de se casar e constituir uma família.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O início de um erro


Ricardo, experiente como era em relacionamentos, tentava se distanciar de Marcela. Afinal, as coisas andavam bem em casa, como nunca antes estara. Mas havia algo em Marcela. Não conseguia discernir o quê. Só sabia que o nome dela estava em sua boca, mais que o tolerável, e já não conseguia disfarçar.

Marcela, por outro lado, reprimia o sentimento. Não queria aceitar aquele ar de mistério de Ricardo e se fingia de boba, desconversava. Não gostava de encrenca e ali sabia que era um caminho sem volta.

Durante as reuniões da firma, happy hours e na frente dos outros, conversavam tranquilamente. Porém tanto Ricardo quanto Marcela escondiam o coração acelerado, as mãos geladas e tentavam disfarçar as bochechas rosadas. Pelo menos Marcela sabia do perigo da cor branca na pele. Qualquer coisa era motivo para ficar vermelha. Ricardo era um deles.

A convivência era sinônimo de perigo. Em grupo a relação era segura, Ricardo se continha, mas sabia que não havia mais como se segurar, até que soltou, como um susto, em direção de Marcela:

- Vamos tomar uma cerveja qualquer dia?
 Logo se arrependeu e com medo de uma negativa, emendou: 

-Gostaria de falar daquele projeto que você apresentou outro dia. Tenho umas ideias das quais poderíamos discutir.

Pronto, estava de volta na zona de segurança, caso algo desse errado.

Marcela já se sentia rosada. O rosto ardia de calor. Mas o coração acelerado respondeu antes que a boca pudesse refletir um pouco, pois via o anel na mão esquerda de Ricardo sempre que passavam pensamentos assim na cabeça:

- Claro, vamos combinar.

-Se não beber, podemos tomar um café aqui na esquina. Com esse frio acho que combinaria mais.
Mais uma vez se envolveu em um recurso de segurança. Muitos conhecidos passariam por ali. Cerveja talvez fosse informal demais e o risco seria maior.

-Cerveja está bom, pode ser depois do expediente?
Marcela mal escondeu a voz trêmula. O que estava fazendo? Nunca se viu no papel de amante e já se enxergava dessa maneira.

-Sim.
Foi tudo que ele conseguiu falar.

Assim Ricardo voltou para sua baia. Nunca quis se envolver daquela forma. Já estava comprometido. Teve uma experiência semelhante, mas preferira terminar tudo antes. Dessa vez não. Gostava do que tinha, havia finalmente construído um lar para chamar de seu. Nos finais de semana gostava de ler, cozinhar, assistir tv e abraçar a mulher. Mas não via saída para essa paixão. Quando achava que a vida já lhe tinha dado problemas demais... Ele acabara de arrumar outro por pura displicência e descontrole.

Nenhum dos dois via a hora do relógio colocar os ponteiros no rumo do número seis. E assim, querendo e não querendo, as dezoito horas chegaram. Juntos pegaram o elevador, ainda com os colegas ao redor, conversavam sobre o trabalho, coisas de rotina. Nada de novo.

Mas ali, da porta do prédio do escritório ao bar, o clima começou a mudar. Ricardo começou a pôr em prática o pecado logo antes das seis. A mulher já estava avisada do retorno tardio para casa por conta de uma reunião que se prolongaria. Marcela, sabendo da sua futura condição, prometeu para si mesma que seria apenas uma aventura, que continuaria a conhecer outras pessoas. Aquilo não era para o bico dela, mesmo querendo experimentar Ricardo.

Já no bar falaram de tudo, menos de trabalho. Ambos sabiam que precisavam de um pretexto para o início desse erro, ainda mais na frente de conhecidos. Porém lá, agora, era apenas os dois. Conversavam sobre livros, filmes e música. Já sabiam que tinham muito em comum, pelo menos quanto à cultura. Até riram do sonho compartilhado em ter uma banda de rock.

Ali se esqueciam de fatores essenciais para não começarem uma história juntos: a diferença de idades e o anel dourado que Ricardo não tirava. Afinal, entre eles, a mão esquerda não tinha muito significado e os números nada mais diziam diante tantos interesses semelhantes.

Depois de alguns copos de cerveja, começaram os toques descontraídos. Por uma piada, por um reforço de argumento, tudo era desculpa para se tocarem. O efeito do álcool era o determinante fatal para concretizar o desejo reprimido. Nem se lembram qual foi o assunto decisivo para tornar tudo real, mas o sorriso sem graça de Ricardo e o olhar tímido de Marcela em certo momento se encontraram. 

O beijo foi inevitável. Ela podia sentir o bigode experiente na sua pele jovem, e enquanto o calor ardia, o corpo dele respondia. Tinham que sair dali. Aquele desejo era urgente demais para se arrepender.

Não havia tempo para pensar. Ele já tinha no rosto manchas de batom, e ela, o cheiro do perfume dele. Eram apenas os dois determinados a se descobrirem sem refletir sobre as consequências. Era o início de um adultério por parte de Ricardo e um caso por parte de Marcela.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O primeiro fim



Ao se afogar em lágrimas e se emudecer pelos soluços, desolada, se virou para a mãe e deu som para aquele pensamento que não saía da cabeça desde então:

- Eu iria casar com ele!

Era visível na mãe o olhar de dó. Mas sabia que aquela seria apenas a primeira experiência da filha no amor, e que o universo masculino infelizmente ainda lhe forneceria muitas desilusões.

- Talvez não era para ser, filha.

Foi tudo que conseguiu falar. Aquela frase pronta diante do sofrimento imensurável da filha. Sabia que a dor deveria ser intensa, pois naqueles tempos confissões eram difíceis. Os ares rebeldes da adolescência não davam sossego. Mas ali não tinha muito para onde recorrer. O pai nunca admitiu chorar por conta de homem. Talvez ele só enxergasse a situação dessa maneira, não conseguir ver ali o fim do primeiro amor. Afinal, quem nunca passou passou por isso?

Não queria admitir, mas a filha já previa o fim. Tanto que só chorava ao ver o então amado. Aquele relacionamento tinha data de término. Uma decisão de poder atravessar o atlântico pela primeira vez ainda era maior que o relacionamento. Viagens sempre foram seus maiores sonhos e melhores experiências, mas saberia disso apenas algum tempo depois.

Junto àquela experiência estrangeira, havia uma mudança mais definitiva. Apenas duas horas e meia de distância, mas que são infinitas horas de distância no mundo adolescente. Talvez esses dois acontecimentos do destino haviam se somado às lágrimas dela. E isso tenha antecipado o fim.

Agora nem se lembra que dia da semana era, porém se recorda que teria aula no dia seguinte. E as palavras ditas naquele telefonema são inesquecíveis:

- Você está pensando em terminar? As palavras soaram cheias de medo, mas já sentindo a predisposição dele.

-Sim.

-Mas por quê?

Assim, bem nesse momento, é que as lembranças se esgotam. Não se lembra qual o dia do ano comemorariam o primeiro aniversário. Só se recorda da importância da data: um ano de namoro. Datas sempre lhe foram importantes.  Imagine então para um garota de 16 anos.

Nem se lembra da voz dele, receosa, mas com certa convicção. As duas noites seguidas em claro e o pranto inconsolável é o que lhe marcou. As aulas nos dois dias seguintes se passaram normalmente, mas tudo  o que ela fazia era chorar.

Como viveria sem ele? Era com ele que fazia planos. Tinham tanto em comum. Tantas cartas escritas, juras de amor prometidas, desenhos rabiscados, longos beijos trocados, e as primeiras carícias...

Foi com ele que descobriu a desilusão. Ou melhor, sem ele. Passados os dois dias fazia questão de se mostrar por aí feliz. Mas só ela sabia que era um sorriso triste, vazio, sem nada para oferecer. Atravessou o atlântico e a tristeza ainda lhe corroía os ossos, junto àquele frio nunca antes sentido. Era tudo novidade.

A vida com 16 anos parecia tão dramática, menos irracional. Talvez a dureza dos anos e experiências posteriores lhe tinha deixado de alguma forma mais forte. Demorou demais para esquecer daquele cabelo cacheado, óculos preto e do personagem que ele criou para conquistá-la: o Teddy. Ele aparecia nas cartas juntos às palavras doces de um adolescente apaixonado.

Anos se passaram e outra paixão arrebatadora lhe pegou. Logo transformou-se em amor. Mais uma vez tinha certeza do mundo. Mas mal sabia que o criador do Teddy apareceria novamente, quase 10 anos depois.

Quando o viu, sorriu. Esperava por um cumprimento educado, meias palavras sem graça de um relacionamento mal acabado. Tudo que recebeu foi um olhar desviado. Ele tinha tanto significado na sua história, mas ele não demonstrava tal reciprocidade. Mesmo após todo esse tempo ele não lhe deu satisfações. Foi como aquele telefonema traumático de aniversário de um ano de relacionamento. Mas o engraçado da vida foi que a dor e o vazio não vieram, e sim a pena por ele ter que fingir que nada havia acontecido entre dois enquanto sua parceira a olhava desconfiada, pois deveria saber de quem se tratava.

"Não vejo mais você faz tanto tempo. Que vontade que eu sinto. De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços. É verdade, eu não minto.
E nesse desespero em que me vejo. Já cheguei a tal ponto de me trocar diversas vezes por você só pra ver se te encontro.
(...)
Agora, que faço eu da vida sem você? Você não me ensinou a te esquecer. Você só me ensinou a te querer. E te querendo eu vou tentando te encontrar. Vou me perdendo. Buscando em outros braços seus abraços. Perdido no vazio de outros passos. Do abismo em que você se retirou. E me atirou e me deixou aqui sozinho."

Hoje, nem mesmo a música, com a qual derramou várias lágrimas por ele, significa alguma coisa. Pois o primeiro amor foi assim, arrebatador, mas esquecível.







terça-feira, 14 de junho de 2016

Puro aquarianismo



-Ai, Deus, por que eu mandei aquela mensagem?

Ser aquariana é assim. 

É querer arriscar tudo sem perder o todo. 
Ser impulsiva e se arrepender no segundo seguinte.
Ficar quase dois anos sem escrever sobre si e de repente querer digitar sobre a vida inteira.
Compartilhar cenas sem declarar detalhes.
Ter milhões de dúvidas, e só demonstrar certeza.

Pessoas de aquário são assim mesmo. Quando quer se abrir, se cala.

Acredita em destino, mas quer surpresas.
Quer fazer parte tentando provar sua identidade.
Adora um misticismo, mas não consegue ficar sem planejamento.

Tem milhões de rascunhos e só algumas publicações.
Quer dizer, mas tem medo de falar.
Gosta de se mexer, mas tem horas que não consegue sair do lugar.

Venera o inédito, mas não vê a hora de viver do previsível.
Faz planos, sonha alto e ao mesmo tempo quer voar e ficar por aqui mesmo.

Não sabe se deixa essa página em modo privado ou público.
Não sabe se continua ou se pára.

Aquarianos nunca sabem de nada. 


Morte, a palavra pesada

Há épocas na vida em que alguns sentimentos e percepções estão mais afloradas. Dessa vez, porém, não é um sentimento tão bom assim. Ele traz um aroma azedo e um gosto amargo. E ninguém é fã de coisas ruins. Pelo menos é o que acredito.

Mas do nada ela chega. Morte. Palavra forte, não? Todo mundo sabe que ela vive nos rondando. É até irônico usar o verbo "viver" para descrever esse fim.

A morte é a certeza de um rompimento. Sabemos no fundo que há algumas pessoas que nunca mais veremos e isso já é de certa forma o final de algo.Mas a morte é definitiva. E dessa forma o "para sempre" também pode ser assustador.

Na infância, o substantivo é tão abstrato que parece nunca se tornar concreto. Entretanto, o tempo o faz tornar presente. E assim, abruptamente, rompemos, de vez, laços. Como qualquer ruptura, fica o vazio, as lembranças, e a tentativa de entender o porquê disso acontecer por mais que a morte seja "coisas da vida".