quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O abraço do adeus




Sei lá se foi indecência do destino, mas uma despedida mais simbólica que aquela não haveria de ter. Não nessa vida.

Marina sabia que provavelmente não se encontrariam mais naquele caos de cidade. Por mais difícil que fosse, todo dia, ao pegar o metrô, desejava que o mesmo destino sacana os fizessem, sem querer, esbarrar no dia-a-dia do outro. Mas por mais que torcesse, sabia que as mínimas probabilidades não ajudariam. Ela não conhecia ao certo o roteiro de Joaquim, mas sabia que seu caminho de casa não o levava àquela direção.

Pois, enfim, era um último breve adeus. Teve pena de todo aquele tempo que deixaram de viver. Entretanto, era também uma espécie de alívio. Não se preocupou com a sensação. Queria estar lá e ponto. Pronto.

Sabia que não faria diferença. No fim nada existiu e talvez tivesse sido tudo uma falta de ilusão meio sem graça.

E quão irônico o destino seria! Tiveram poucos minutos com tanta gente em volta que expressões e desejos faltaram. As palavras foram resumidamente breves. Podia-se apenas perceber a risada desesperada dela e a falta de jeito dele.

Iriam dar um último abraço, um pequeno toque que antes já significou tanto. E assim, o presente impediu. Os olhos dos outros nem notaram. Talvez até tenham percebido alguma tensão do momento e resolveram ignorar o sexto sentido.

E o último abraço nunca aconteceu. O destino já dando gargalhadas de algum lugar não muito longe, os impediu da ação. Marina e Joaquim bem que tentaram, mas naquele instante a pretensão do toque já bastou. 

Ouviu-se um "boa sorte" de um lado e o "até mais" de outro.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A complicação de se tentar viver o simples



À medida que o tempo passa e a idade se torna um número maior, as coisas parecem ficar mais complicadas e ao mesmo tempo, simples. Porque na verdade nada é do jeito como antes tinha certeza. Complexo, não? Não nego.

Mas não nego que às vezes invejo os simples. Nem jornal assistem. Senso crítico não existe para alguns que se ditam entendedores da vida e da política. Cada um usando alguma plataforma para ditar a ideologia com a qual mais se identifica quando na verdade apenas cospe para cima, pois que não faz a mínima diferença para quem não concorda. E assim cada um segue seu rumo tentando convencer a todos de sua verdade quando na realidade ninguém liga.

Eu mesma bloqueio. Tento fingir que nada me afeta. Viver em um casulo é bem mais fácil que se deixar atingir por tanta energia assim. Competição disfarçada de justiça, inveja dissimulada, falta de amor e paciência, e talvez o maior de todos os sentimentos dessa nossa nação esquisita: intolerância. Mas quem me dera fosse privilégio de um só lugar. Não é. Talvez seja o mal do ser humano com tanto acesso às palavras e possibilidades de alcance com o discurso.

E aí eu nem dissimulo inveja. Eu gostaria de, no fundo do coração, me apegar a algo que me faria fugir dessa sensação de desilusão, falta de saída, ausência de esperança na véspera de ano novo e apatia no natal. E ao mesmo tempo critico e gostaria de participar de algumas fugas como aquela pela Igreja, pela política, seja esquerda ou direita, pela família preocupada em compartilhanr tantos momentos felizes com os outros, deixando no modo privado as intrigas e dificuldades - como se algum instituto fosse a única resposta para tudo.

Assim me afundo em apatia. Talvez essa seria uma palavra para 2016. Eu brincava de gostava de anos pares, mas até essa minha baboseira deixou de fazer sentido. Quem sabe tantos números 7 no próximo ano me deem a sorte que ando precisando, mas mais que isso: alguma espécie de ilusão e motivo. Acho que não.

Não sei se há saída quando se começa a enxergar a vida com esses óculos. Seria uma visão mais limpa ou rebuscada? O coração não sabe discernir e a alma se sente pesada. Não aguenta nem mais acompanhar a brutalidade humana por meio de notícias e se pergunta o porquê de ter estudado Jornalismo se não aguenta o tranco. Mas a verdade é que o tempo me trouxe sensibilidade, medo, insegurança e incertezas. 

Seguro as lágrimas por nervosismo com certa facilidade quando lembro de como um dia já fui, mas descobri que segurar o choro pode ser pior. Porque assim as coisas da vida me afetam mais. Tomo para mim a dor dos outros. Concordo com o ditado que se deve colocar no lugar do outro, mas talvez eu tenha tornado isso pessoal de mais e tomado isso como uma verdade absoluta, da forma mais séria que poderia ter sido tomada. Afinal, seriedade sempre foi um adjetivo próximo a mim.

E acho que pensar nisso tudo faz mal. Melhor mesmo é viver num ciclo infinito da rotina (à la Westworld) e se contentar com o que está restrito a minha volta e parar de pensar besteira. Tentar engolir o mundo com um gole só para matar a sede de uma só vez pode não ser muito inteligente, mas é complicado deixar alguma intensidade e certa insanidade de lado. 

Talvez seja hora de acabar com aquela garrafa de vinho da geladeira e ir dormir.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Espaços e verdades





Demorou anos para entender aquela angústia tão familiar. Exatos trinta e cinco. Era uma mistura de ciúme e possessividade com a vontade de se libertar. Camila era assim, oito ou oitenta, como se costuma dizer. Tinha dentro de si sentimentos tão antagônicos.

Provavelmente no início, apenas repetia comportamentos que enxergava no dia-a-dia. Depois, tornou "o jeito dela mesmo", como era conhecida. Séria e brava. Era comum descrever Camila desse modo.

Quando conheceu Fabrício, nem sabia, contudo já havia entendido que a liberdade essa essencial, e o ciúme e a possessividade nem tanto. Ele era popular e não iria restringir as horas livres apenas a Camila. Ela não se entristecia com isso. Aproveitou e teve o primeiro relacionamento assim.

Deixaria Fabrício ser feliz também sem ela, contanto que ele fizesse o mesmo. Claro que ele não tinha problemas com isso. O exemplo que ele seguiu desde sempre era o oposto. Fabrício respeitaria o espaço da companheira.

Mas aí Camila sonhou que ele estava desacompanhado. O antigo sentimento veio à tona; não suportava a ideia de Fabrício se divertir sem ela. "Imagina! Não pode!". Com custo conseguiu segurar o impulso e não disse nada. Não contou o sonho. Se fosse outros tempos, falaria. E o sonho mexeria tanto com a cabeça dela que talvez até repensasse o conceito de liberdade.

Porém ela se lembrou de quantas mulheres conhecia com aquele mesmo pensamento da Camila do passado...Elas prendiam o parceiro e elas mesmas. O homem era proibido de sorrir por e com outra mulher. Hoje sente dó por elas.

Depois desse sonho, uma frase - claro que dita por um homem - não saiu da cabeça de Camila por dias:

- Por puro egoísmo não conseguimos imaginar outra pessoa ao lado de quem amamos.

Agora Camila entende que um casal na verdade não é apenas um. Um casal é simplesmente a soma de dois. E os dois são seres independentes. 

Assim como Camila, Fabrício poderia querer e ter alguns momentos sozinho, falar besteira com os amigos, desejar outras mulheres secretamente. No fundo ela sabe. Mas há coisas que é melhor fingir não saber. Afinal, todo mundo deseja todo mundo, apesar de a maioria se contentar apenas com uma pessoa. Seria isso contentamento ou imposição? Não sabia mais. Talvez demore mais trinta e cinco anos para Camila desvendar essa outra verdade.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Um documentário que mudou o meu dia



Se eu tinha alguma noção de vida enquanto crescia era da importância do sorriso. E alguma coisa dentro de mim já me avisada que aquele riso solto e estridente tinha data de vencimento. Talvez fosse esse o motivo da bebida dos adultos? Eu sem saber acertava à pergunta já com a resposta embutida.

Não sei quando foi que o gosto da vida puxou mais pro amargo que para o doce. Só sei que assim como com a maioria das pessoas, aconteceu. E meu rosto ficou enrijecido. Meu normal era a seriedade e não mais o sorriso.

Talvez sejam as angústias, as expectativas não atendidas, as frustrações. Provavelmente foi tudo aquilo que chamados de "coisas da vida" e depois damos um suspiro profundo na esperança de que passe, sabendo que precisaremos de muitos outros suspiros, pois não sabemos lidar com tudo isso.

Mas no meio dessa tristeza sem explicação aparente desconfigurada no caos do dia-a-dia que ouvi uma indicação de um documentário. Sempre gostei de documentários e corri para assistir.

Talvez esse texto caiba mais no meu outro blog sobre séries e programas de televisão, mas se se tratar apenas do gêneros televisivos. E não é disso que quero falar. Tony Robbins pode ser grosso, direto, objetivo - gosto de gente assim; nunca tive paciência para prolixidade -, mas ele me tocou.

Ele tem um trabalho de tocar a vida das pessoas de modo com que essas mesmas pessoas enxerguem um outro lado. Em vez de se esconder através das "normalidades" da rotina, ele nos força a ir de encontro com nosso sofrimento. Aquele suspiro depois de dizer ou pensar "coisas da vida"? Ele propõe enfrentar.

Claro que é impossível sentir o que aquelas pessoas vivenciaram ao vivo, mas uma reflexão, logo no fim, me fez desabar. Ele desafiou os participantes para que se lembrassem dos momentos de gratidão, todos os momentos felizes e alegres que já viveram.

E eu ali no sofá, tentei me lembrar. No início, fiz esforço. Logo percebi que tenho a tendência de dar mais valor à angústia, à solidão. Mas mesmo assim cumpri a tarefa.

Comecei de trás para frente. Lembrei do dia do meu casamento; da viagem ao casamento da minha irmã; da família estrangeira que ainda me recebe como se filha eu fosse; dos momentos simples com os meus pais e irmãos, na mesa, rindo do passado sem perceber que estávamos construindo outras memórias felizes; recordei das saídas com os meus amigos de faculdade - todas, mesmo às vezes densas, tão leves ao mesmo tempo; lembrei-me das minhas tardes de ensaio da banda quando eu sonhava ainda na companhia da guitarra; revivi outras tardes sentada na calçada com as minhas amigas de infância conversando sobre coisas quaisquer que vivíamos. Tentei relembrar de cada pôr-do-sol apreciado.

No meio de tantas lembranças, chorei e ri no sofá da sala na noite de uma terça-feira. Por um instante, compreendi o significado de gratidão e comecei a aprender - penso ser um longo ensinamento - a enxergar a força das pessoas, independente de qualquer sofrimento. Logo depois do documentário senti necessidade de escrever.

Essa necessidade que surge quando me permito sentir mais um pouco e que talvez seja uma das minhas maiores gratidões por todas essas experiências que a vida tem me proporcionado. Só digo uma coisa: permita-se a sentir e tente Tony Robbins.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A utopia da avenida Paulista



Ela acha que os grandes sonhos se iniciam com pequenos detalhes reais. Quase que acidentalmente, foi sempre assim.

Como nunca gostou de calor, sempre sonhou em morar em algum lugar frio. Não gostava de ao meio-dia não ter condições de andar na rua, pois o suor incomodava até a região da sobrancelha. Contudo, não aguentou dez meses abaixo de zero. Ficou por sete.

Hoje sorri quando tem de envolver algum lenço no pescoço por conta do vento gelado do inverno. Sente uma plenitude esquisita nesses instantes.

Ela desejava ir para um lugar maior. Um milhão de pessoas parecia um número pequeno demais para a juventude precoce e ambiciosa que teve. Caminhou bastante para quem ainda não tinha nem 30 anos nas costas. Percorreu apenas algumas horas e se instalou, mas também não se viu muito satisfeita. Faltava alguma coisa.

Mesmo com aquela sensação contínua de falta, fingiu estar tudo bem e seguiu fazendo coisas que todo mundo faz: estuda, trabalha, aprende, quebra a cara e distribui sorrisos tortos por aí, guardando as verdadeiras expressões só para quem merece.

Depois de um tempo, percorreu mais alguns quilômetros e já estava bem distante do local de origem. Já não tinha nada a ver com a menina do interior do país. Aqueles lugares os quais frequentava eram estranhos aos seus olhos, o calor incomodava mais até do que da época em que o suor era rotina.

Dentre os sonhos que tivera, havia um em especial. A avenida Paulista sempre pareceu bonita demais, cheia de vida, repleta de detalhes, com gosto de cidade grande e diferente de tudo que conhecia. Parecia nem fazer parte de onde morava. Quando se misturava aos pedestres, esquecia-se das frustrações e fazia um pedido disfarçado e silencioso para que um dia fizesse daquela avenida sua rotina.

Porém quando se sonha demais, a realidade se esquece dos detalhes e deixa as sensações palpáveis. A emoção, a visão, os momentos de alegria e solidão. Percebe-se tudo de uma forma exagerada. Demora um pouco para se acostumar com ruas e esquinas estranhas. Enquanto isso, tem de lidar com os extremos a toda hora, todo dia; e segurar a onda ao fingir não ter agonia alguma.

Engole a saliva seca e torce para conseguir fugir de alguma maneira de toda a frustração dos "nãos" recebidos; das ausências de respostas só para se sentir mais digna de si. "Um trabalho dignifica o homem", é o que se diz por aí. Ainda não se viu digna. Já não se sente digna há dois anos.

Recuperou um pouco dessa dignidade e ainda tenta disfarçar a falta graças ao rótulo que escolheu para si. Estudante. Sente-se protegida dessa forma. Ignora o fato de ter estudado por toda a vida e ter um título o qual não muito adianta. 

Pelo menos dessa maneira tem uma desculpa para se sentir completa e ter um objetivo. É o que ela pensa. Uma razão para programar o alarme e acordar na manhã seguinte. Até que dá certo em alguns dias. Já em outros, não consegue se enganar tão bem e o vazio a incomoda desde o momento em que abre os olhos e percebe ter de viver essa fase ainda sem data de fim.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Insensível ao invisível



Era uma semana comum, nada demais. Afinal, a maior parte da nossa vida é assim, feita de rotina. Alguns atos se tornam, por conta da repetição, praticamente um ritual.

Dessa forma é a o meu dia-a-dia, marcado por algumas estações de metrô. Há a estação ao lado da minha casa, aquela onde eu descia para assistir aula, e agora outra que é onde escolhi como meu "escritório compartilhado de estudo".

Hoje, no meio dos rituais de me exercitar, me arrumar e me maquiar rumo ao meu canto do período vespertino, uma coisa diferente aconteceu. Se não fosse a meia hora anterior ao horário normal de sair de casa, eu não havia presenciado aquela cena.

Um senhor de idade pedindo esmola no vagão. Até aí nada de novidade, pois a pobreza no nosso país é tão invisível quanto a força dos nossos hábitos. Lá de longe eu ouvia aquela mesma história triste compartilhada por tantos; talvez seja pura insensibilidade de minha parte, assim como de muitos, mas o repertório não me toca mais.

Ficamos com peso na consciência por não ajudar, mas o sentimento não é profundo o bastante a ponto de nos mexer em busca de algumas moedas na carteira. Talvez seja a banalização da pobreza, nosso egoísmo ou medo de algum tipo de roubo ou golpe. Provavelmente, de minha parte seja apenas "mesquinhagem" mesmo. 

Mas aí, no meio da minha preocupação em olhar apenas para o meu umbigo, de repente vi uma mulher que enxergou o outro. Ela viu aquele senhor pedindo dinheiro no meio da história triste de vida dele. Ele, tão ignorado naquele vagão, até estranhou quando ela se aproximou para conversar.

A mulher perguntou o que ele fazia em São Paulo, por que ele havia vindo para a cidade grande, o que havia acontecido para ele chegar àquele ponto e o que ele faria com o dinheiro que conseguira. Assim como muita gente ao meu lado, vi-me envergonhada. Por que não nos interessamos pelo próximo?

Ela, em um gesto tão simples, chamou atenção das pessoas em volta. A mulher de casaco branco e bota até o joelho, falando baixo, conseguiu mais consideração que o senhor que vestia um moletom sujo e pedia dinheiro com o tom de voz mais alto que as cordas vocais dele permitiam.

Depois de ele contar que queria voltar a morar perto da família na cidade de onde viera, ela perguntou ao senhor se ele gostaria de retornar hoje mesmo. Ele, meio surpreso, e eu tentando disfarçar minha curiosidade - concentrando os olhos na tela de tv do vagão, mas com a audição voltada a eles -, respondeu que sim.

- Eu só vou a um compromisso agora e se o senhor puder me esperar por uma hora na frente do prédio onde trabalho, depois posso comprar a passagem. 
Disse ela.

-Se você puder, tá bom.
Sem muita reação,  foi tudo que conseguiu dizer. 

Após esse diálogo, o metrô parou e eu tinha de descer. A mulher que estava tão concentrada no senhor, viu-se perdida por alguns segundos e se perguntou se já era a estação em que tinha que sair. Saí de cabeça baixa e envergonhada colaborando da forma mais ridícula que poderia:

- Aqui é a Ana Rosa. 


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Meus escritos


Eu acho que todo escritor sente demais. Talvez seja esse o motivo da necessidade das palavras. Expressar soa como um alívio instantâneo. Não é todo mundo que sente isso.

Conheço muita gente assim. A gente se reconhece pelo olhar. Sabe duvidando que o outro sente o mesmo. 

Quando as frases escapam das páginas e ganham força com a voz, a gente se identifica. Só outro escritor para entender a sensação. Ninguém mais lê cada letra com a mesma intensidade como quem a escreveu.

Desde cedo tive isso. Sempre gostei das palavras. Apesar de odiar gramática na escola, fiz campeonatos para disputar a velocidade em que se devorava os livros e rabisquei algumas canções. Tudo na mesma época.

Mas foi junto a presença dos livros que a minha redação desenvolveu. Ganhei meu primeiro 10 no primeiro ano do ensino médio em uma prova de texto. Graças àquela nota a minha média escolar melhorou e não fiquei de recuperação no bimestre. Meu boletim foi entregue a mim na sala, e não aos meus pais posteriormente.

Graças à redação que conquistei minha profissão. Nem sabia direito o que os jornalistas faziam. Ignorei a etapa da apuração, porque eu só gostava de quando tinha todos os fatos comigo. Ali era o momento de escrever tudo que descobrira. Aquele instante era o motivo do meu diploma.

Seria realmente possível viver do que se gosta? Vi gente correndo esse risco, mas sou certinha demais e não consigo viver de incertezas.

Outro dia conversei com um amigo sobre o tabu cristão da penitência. O sacrifício presente no imaginário do homem. Para se viver tem de sofrer. Talvez eu seja mais cristã do que prometi nunca ser e continuo a postergar sonhos e a me apoiar no estabelecido.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A distância que nos aproxima



Nos últimos tempos eu tenho estado tão distante de você. Longe de nós dois. Foi aí que eu recorri à nossa história que aconteceu assim, meio sem querer.

Como eu disse nos meus votos do dia 13, eu estava feliz sozinha e você não procurava um par quando nos conhecemos. Naquele dia, em setembro, oficializamos a nossa vontade de grudar um no outro.

Mas não sabíamos que o nosso amor não estava no grude. Era a distância que nos fortalecia. Brasília ficou pequena para nós dois. Os 22 quilômetros entre as nossas casas não foram motivo para dificuldades. Muito menos quando o seu trabalho resolveu te afastar de mim e te levou para outra região do Brasil. Não nos importamos com isso.

Talvez fosse aquilo que nos mantinha vivos, cheios de amor um pelo outro. Hoje, quando nos distanciamos fisicamente por alguns dias, percebo nosso amor se fortalecendo.

Quando isso acontece, mal posso esperar para te avistar e te abraçar. Sentir seu cheiro, sua barba e seu cabelo próximos de mim.

Reclamo para o vento que você me dá mais valor quando na companhia da minha ausência. Talvez o motivo de eu falar em voz alta seja porque repito seu comportamento.

Não nego meu signo. Aquariana rebelde com ascendente em touro perfeccionista, quero viver tudo ao mesmo tempo fazendo da melhor maneira que posso. 

Muitas vezes preciso respirar e você nunca se queixou disso. Mas depois de viver um pouco, sinto saudade do seu abraço na nossa casa.

Você, diferente de todos os outros, nunca me tolheu. Respeita minha mania de liberdade e me deixa voar. Talvez seja esse o segredo da sua alma sagitariana. Ri do ciúme como se fosse a mais triste das piadas.

Demorei a aprender isso. Precisei me distanciar um pouco emocionalmente para entender de onde vem a nossa força. Eu escolhi você e você me escolheu. Lembrei disso e voltei para você.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

O beijo dos lábios que nunca se encontraram


Acordou assustada no meio da noite. Alguém teria ouvido? Era madrugada e ela havia sonhado com ele. Jordana achou que tivesse superado, mas a memória de William ainda lhe rondava.

Bastou desabafar sobre aquele desejo secreto e proibido que se chamava William para a irmã. O subconsciente preparou uma surpresa: um sonho - que pareceu durar horas - com ele. Isso porque na presença da irmã disse que havia esquecido aquela história que na verdade não se tornou história alguma. 

Para William, nunca teve coragem de dizer nada. Bem que hesitou em alguns momentos, mas achou melhor deixar apenas na sugestão. Contudo isso não significava necessariamente que não ensaiou nomear com palavras tudo o que sentia, ou sentiu. Não sabia mais.

Naquele sonho, ela tomou coragem. Durante o sono, Jordana sentiu os lábios molhados e macios de William. Até lá, em que a realidade não existia, eles demoraram para se encostar, mas quando aconteceu... Tudo que ela se lembrava era da sensação. 

Jordana sabia que não iria abrir mão dele. Talvez William, no sonho, também não, pois se viram e se beijaram em várias outras ocasiões. De madrugada não se recordava onde foi que os lábios haviam se encontrado pela primeira vez, porém se lembrava que depois se beijaram no carro, no sofá, em um bar e até em uma garagem de uma casa qualquer. 

No sonho não havia complicações. Eram apenas as dois lábios inseparáveis que se esqueciam de todo o resto; na verdade naquele lugar não existia resto algum.

Mas quando acordou de madrugada, torceu para o nome de William não ter-lhe escapado da boca. Era o seu segredo e nada dali aconteceria. Olhou a escuridão do quarto e ouviu a casa silenciosa.  Respirou aliviada e tornou a fechar os olhos. Esperava ver o rosto de William mais uma vez em outro sonho. Queria lhe dar um último beijo.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Uma passagem de volta, por favor


Jean não era bonito. Isso não era segredo para ninguém. Mas sempre fora o "gente boa" da turma. Vivia rodeado de mulheres, porém todas amigas. Nem em uma cidade como São Paulo conseguia encontrar uma companheira. Então resolveu se aventurar em um desses sites de encontro.

Fez o cadastro e esperou por alguma coisa. Os dias se passaram e começou a conversa com uma francesa. Trocaram fotos. Se ela já não gostasse dele, como estava acostumado, insistiria mais algumas vezes com mulheres de diferentes partes do mundo. Não havia problemas.

Mas para espanto de Jean, o papo fluiu. Passaram meses trocando mensagens. Por mais que ela não estivesse do mesmo lado do Atlântico, ele se sentia preenchido com coisas que já lhe eram estranhas: companhia, jogar conversa fora e flertar.

Até que um dia a tal francesa resolveu lhe surpreender. Seria a formatura de graduação dela. Amigos de vários países vizinhos na Europa iriam para festa, então por que não convidá-lo? Pelo menos foi assim que Jean pensou. Ele não teve dúvida quando o convite surgiu. Contratou uma agência de viagens e comprou as passagens para dali um mês.

Paris. Sempre teve vontade de conhecer, mas nunca teve coragem suficiente para viajar. Faltava-lhe companhia. Contudo esse problema era parte do passado.

Esperançoso em busca do amor, Jean embarcou. Entretanto o que não estava em seus planos era ser tratado como apenas mais um dos convidados. A francesa não deu oportunidade para ficar a sós com ele. Ela estava sempre rodeada de amigos. "Será que ela não gostou de mim pessoalmente?". "Será que esperava um homem rico para lhe sustentar?".

Jean ficou confuso. A francesa não era a mesma pessoa do bate-papo. Em Paris, ela era seca, fria e distante. Online, ela foi doce, carinhosa e atenciosa. Tanto que a versão digital lhe ofereceu hospedagem. Mas depois de dois dias naquele clima estranho, na casa cercada de gente mais jovem que ele, Jean procurou um hotel.

Eles se despediram rapidamente. Jean até percebeu um certo alívio por parte da francesa. "Vida que segue", pensou. Pelo menos estava em Paris e não iria desperdiçar uma viagem por uma desconhecida. Arriscou o francês, comeu refeições solitárias nos restaurantes que tinham mesas nas calçadas e andou atrás de novidade nos clássicos museus.

Assim o resto da semana passou e o dia do retorno amanheceu. No caminho ao aeroporto prometeu a si mesmo que nunca mais faria uma besteira dessas por "amor". Mas já no avião se perdoou e aproveitou a variedade de filmes que ainda estavam em cartaz no Brasil. Evitaria idas solitárias ao cinema.

Já em Congonhas, era hora de pegar a mala. A bagagem não havia chegado, mas logo observou uma moça não tão graciosa tentando tirar a mala pesada da esteira. Resolveu ajudá-la. Como gesto de agradecimento, ela decidiu fazer companhia para Jean até que a bagagem dele chegasse. 

Mas a conversa foi tão simpática que resolveram dividir o táxi. Iriam os dois para a zona sul. Antes de ela descer do carro, Jean tomou coragem - talvez ainda restasse alguma depois daquela viagem - e pediu o número da moça.

Assim, meio que sem planejar nada, eles começaram a conversar e o relacionamento foi a mais natural das consequências. Hoje, casado com a moça do aeroporto, Jean ainda ri de como se conheceram. Precisou se iludir em outro continente para conhecer o amor em território tupiniquim.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Sonhos insignificantes traçados em avenidas desconhecidas



Virou a página do calendário. Já era julho. Sabia que tinha que fazer alguma coisa, tomar uma atitude. "Já sei", pensou Alice. Iria limpar a casa. Mas não seria uma faxina qualquer. Limparia também as coisas que normalmente deixa passar: os quadros, as janelas e os lustres.

Sentia-se calma limpando o apartamento. Era uma espécie de limpeza de espírito. Pegou a escada e começou. Ligou o som e escolheu uma de suas músicas favoritas.

Tentou concentrar em cada cisco de poeira que mal enxergava, mas era uma tarefa árdua, pelo menos naquele dia. A vida estava uma bagunça e não seria tão simples pegar um pano e sair limpando-a por aí.

Pela primeira vez estava bem consigo mesma, entretanto queria mais. Planejava uma viagem que transformaria sua vida. "Estou pronta para isso?", refletia enquanto tirava cada livro da estante para limpar. Após aquele emprego com um chefe difícil de lidar, salário injusto e horas extras não pagas, talvez fosse a hora perfeita.

O dinheiro guardado tinha que ser gasto com alguma experiência maluca. "O contrato do aluguel vence nas próximas semanas, você não tem nenhum relacionamento para ofuscar os planos, o seguro-desemprego está garantido por alguns meses... Por que não?", concluiu.

Depois da limpeza das lâmpadas de casa, Alice havia decidido. Mudaria de país. O Brasil já era pequeno demais para ela. O inglês estava "ok". Não arriscaria uma outra vida onde se comunicar fosse tarefa impossível. A trajetória era doida o bastante.

Mas qual país? Estados Unidos para se juntar aos milhões de brasileiros em busca do sonho americano? Inglaterra para se adaptar à pontualidade e arrogância dos britânicos? Austrália para tirar fotos dos cangurus e se apaixonar por algum surfista loiro com os fios até o ombro? Não se via em nenhum desses destinos clichês.

Leu em algum lugar que uma cidade do interior da Nova Zelândia tinha mil postos de trabalho para os 800 habitantes. Havia apenas uma pizzaria, um bar e uma escola. Para tentar atrair moradores, os salários oferecidos não eram ruins, cerca de dez mil reais por mês. Não fazia nem a metade disso como jornalista!

Tinha certeza que iria para o interior. Não queria mais saber de metrópole. De nada adiantava mais de 11 milhões de pessoas se passava os dias sozinha. Desejava viver um pouco em um lugar mais desenvolvido para não ter que encarar a pobreza de frente e continuar sem coragem de fazer alguma coisa para mudar.

Conseguiu o contato do administrador de Kaitangata - "tenho que me acostumar com esses nomes exóticos", pensou enquanto digitava - e escreveu um e-mail contando dos seus planos. Logo recebeu a resposta, questão de um dia. "Será muito bem-vinda", respondeu Bryan. Logo a ofereceu um trabalho de assessoramento na escola.

Alice nunca pensou em trabalhar em escolas. Não tinha muita paciência com crianças, mas para começar, por que não? Trabalhar no meio de papéis fazia parte da sua área, tentava se convencer.

"Então é isso". Comprou as passagens, despediu dos parentes distantes, dos amigos que quase não tinha, assinou a papelada quitando o aluguel e resumiu uma vida inteira dentro de uma mala.

Quando o dia da mudança chegou, não se arriscou em pensar se não iria desistir daquela maluquice. Mas não tinha jeito. No avião, com a companhia dos pensamentos se indagava: -Nunca nem fui para Nova Zelândia, para que isso?

Porém agora era uma ida sem volta; pelo menos até juntar dinheiro por lá. Chegando em Wellington, sentiu-se estranhamente plena. O calor era conhecido, o inglês não era tão difícil e a cidade era limpa, repleta de gente educada. Quase se arrependeu por não ter escolhido a capital para ficar uma temporada. Contudo não dava. Havia um ônibus esperando-lhe rumo à Kaitangata.

Não sabia o que esperar, o que conhecer, nem onde moraria ao certo. Uma corretora havia apresentado algumas fotos de casas vazias. Ainda não acreditava que o dinheiro do aluguel de um apartamento dois quartos paulista sobraria com uma casa de três quartos e quintal em Kaitangata.

Eventualmente o ônibus estacionou em uma rua vazia. Uma cidade fantasma e sem vida. Desceu um pouco desiludida, mas também esperançosa. No fundo se identificou com aquelas calçadas sem passos. Nos últimos anos, a rotina era um pouco assim também, não prometia muito. E foi assim, sem perceber nem notar, que se juntou aos milhões de brasileiros em busca do sonho do país desenvolvido. Nova Zelândia seria o seu Estados Unidos.


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Das desilusões femininas


Mais uma vez trouxe o assunto para a roda de amigas. Entre elas, Amanda podia falar sobre qualquer coisa. Ela precisava falar sobre o casamento, mas tocaria no mesmo ponto de meses atrás.

-Não sei mais o que fazer. Parece que ele não sente mais desejo por mim. 

-Mas será que não é apenas cansaço? Trabalho? Não sei.
Ninguém queria concordar com a hipótese de Amanda. Laura foi uma das que tentava confortar a amiga.

O casamento estava morno há algum tempo.  Havia sexo apenas quando Amanha se dispunha porque se fosse por Lucas, o marido, depois da janta eles iriam assistir televisão mesmo. Todas as noites.

- Acho que não. Já vi algumas coisas que ele esconde pela casa. Achei umas revistas e vi mulheres nuas não só impressas, mas também digitalizadas. O problema deve ser comigo.

-Amanda, você já tentou comprar umas coisas diferentes no sex shop? Usar lingeries provocantes? Talvez seja falta de algum estímulo.
Bruna, já com certa pena de Amanda, queria achar uma solução. Porém Bruna nem Laura era casadas, elas não conheciam aquele mal chamado rotina.

Sem muita esperança, Amanda resolveu investir na ideia do sex shop. Procurou alguns artigos que poderiam apimentar a relação. Ao mesmo tempo que se empolgava com diversas opções, sentia-se triste por não perceber o esforço recíproco do marido. 

Tudo tinha que partir dela? Era a rotina da casa: janta, faxina, filhos na escola, passeios de finais de semana e logísticas de viagens. Agora até o sexo tinha que ser iniciativa dela. Teria Amanda mal acostumado Lucas? Não pensou muito nisso.

Ela nunca fora dessas que sonhava com o casamento desde pequena. Houve fases em que ela nem cogitou vestir branco tampouco subir em um altar. Mas quando se apaixonou, essa certeza surgiu. Não esperava nenhum conto da Disney depois da lua de mel, mas achava que os homens teriam mais iniciativa. Quando começou a conversar com outras mulheres casadas do trabalho, percebeu que era unânime aquela desilusão. Depois do casamento, era a mulher quem tinha que comandar tudo, até o romantismo se ansiasse por algum devaneio. Os homens, em sua maioria, esbanjavam vantagens aos amigos, mas não se apresentavam na cama de casa.

No sex shop comprou coisas não tão polêmicas. Não queria assustar Lucas, por mais que ela soubesse que se fosse alguma daquelas mulheres nuas da revista, ele nada recusaria. Depois foi no shopping. Gastou quinhentos reais em lingeries. Estava disposta a salvar o casamento.

Com tudo em mãos, planejou os detalhes daquela noite diferente no quarto de sempre. Afinal casou com um homem que tinha nojo de motéis; não tinha como ser em outro lugar se não estivessem viajando. "Mas se fosse com aquelas mulheres..." Cortou o pensamento antes de concluí-lo.

Acendeu as velas, procurou uma playlist sensual, vestiu o corset e o fio dental e subiu no salto que só usava quando ia em festas. Esperou pelo marido. Após meia hora de quando ele deveria ter chegado, foi apenas uma mensagem no celular que chegou: "estou enrolado no trabalho, vou me atrasar".

Mais uma vez desiludida, decidiu postergar o plano e voltou para o pijama e a pantufa. Deixou a janta na mesa, mas ainda alimentava alguma esperança quanto àquela noite. Porém assim que Lucas rodou a maçaneta da porta e Amanda viu a expressão de cansaço marcando o rosto do marido, concluiu que teria que adiar um pouco mais.

Depois de jantar, louco por um doce na geladeira, Lucas não quis esperar. Eles tinham que ir ao mercado naquela hora. Como não havia nada para comer após a janta? Já eram onze da noite e ele não fazia ideia das lingeries, das velas nem das músicas que a esposa planejara. Talvez ele nem ligaria tanto. Assim, Amanda teve que trocar de roupa mais uma vez. Vestiu o jeans e foram ao mercado.

A caminho, pensava que naquele momento poderia estar aliviando a angústia daquele casamento morno. Mas já no mercado, ela concentrou nos itens que faltavam em casa. Realmente a geladeira não apresentava muitas opções. Até o caixa, não pensou mais naquilo.

Entretanto na volta para a casa a tristeza voltou a assombrá-la. Seria assim o resto do casamento? O resto da sua vida com ele? Ele sempre preferiria qualquer outra coisa a ela?

Quando viu um carro entrar em um motel a meia-noite, se perguntou se aquele homem dentro do automóvel estaria cansado como o marido. Talvez fosse o início do relacionamento. "Os homens não sentem preguiça quando acabam de conhecer uma mulher", dissera uma colega do serviço. Naquele instante teve certeza que o casamento havia lhe trazido uma coisa: desilusão. O marido não fazia questão de decidir nada, nem sobre ela.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

O milagre da queda de uma cachoeira




Não é possível entender o motivo das coisas, mas senti-las é uma obrigação. Pelo menos para Fernanda era. E debaixo da queda da cachoeira, tudo que sentia era a água gelada lavando a alma, mandando embora todas as coisas ruim da rotina.

Todas as vezes que Fernanda ia para aquele cidade do interior de Goiás eram como um ritual de purificação. Não sabia se era o ritmo pacato, a simplicidade das pessoas ou o contato direto com a natureza. Talvez fosse a soma de tudo isso.

Gostava tanto de lá que foi com os pais na infância, com o primeiro namorado na adolescência e com o marido já adulta. Mal podia esperar para levar o filho. Por conta da gravidez de risco não pegou estrada. Preferiu seguir a orientação médica. A dor do parto havia passado há alguns meses, mas o incômodo da amamentação ainda rasgava o peito. Não bastava a depressão pós-parto que tivera. Tentou gostar, leu todos os artigos que encontrou, perguntou para a obstetra, mas tudo que conseguia fazer era chorar junto com o bebê que gritava alto pedindo leite.

Quando o marido sugeriu um passeio até a cidade depois de partilhar a angústia da parceira, Fernanda segurou as lágrimas se arriscavam, mas agora seriam por alívio. Era disso que precisava. Depois da jornada de um recém-nascido, ela precisava renascer naquelas águas correntes. Água doce era mais próxima de casa que a salgada. Além do mais, praia sempre foi algo esporádico. Mas cachoeira não. Cinco vezes ao ano ainda não eram suficientes. E por conta da gravidez passou os quinze meses anteriores ao início daquela aventura chamada procriação longe do gelo das águas.

Reservaram a pousada e arrumaram a mala. Fernanda, com o sorriso no rosto, ia na parte detrás do carro, acompanhando o bebê, enquanto o marido dirigia. Não pegaram estrada de terra no mesmo dia. O esposo insistiu para que descansassem antes e só na próxima manhã fizessem os passeios rumo àquelas quedas.

Durante a madrugada, o filho pediu peito. Mas na cidadezinha, Fernanda já não sentia tanta dor. Ela se concentrou no sol tímido e conseguiu não expressar incômodo.

Finalmente quando a madrugada virou dia, a família seguiu rumo ao conforto da mãe. A trilha de quinhentos metros nunca foi tão longa. Com recém-nascido não podiam ir a cachoeiras afastadas nem inóspitas. Mas ela se contentou com a pequena queda e a fazenda descaracterizada de simplicidade, culpa da infra-estrutura percebida já no momento em que atravessaram a porteira.

Chegando no rio, Fernanda entregou o neném ao marido e mergulhou ignorando os 18 graus das sete horas da manhã. Quando sentiu a água, muita coisa passou pela sua cabeça. Os passeios por ali, as caminhadas, a família, e enfim, o filho. 

Logo que emergiu e avistou o esposo com o neném no colo, teve uma certeza: precisava batizar a prole.  Nunca foi religiosa, mas aquele era seu ritual de purificação. E ao molhar o neném, ele chorou e ela sorriu. Eles  começaram a se entender ali. 


quinta-feira, 23 de junho de 2016

Dos homens aos bichos


Roberta sempre foi ingênua. A vida não lhe apresentou a maturidade do mundo. Quando o mal se aproximou, ela  virou a esquina. Assim os dias se passaram, mas sem demora a família observou que a cabeça dela não funcionava como as demais.

Os parentes costumavam dizer que era "cabeça de vento". "Provavelmente ela tem algum problema", pensavam sem muita coragem para verbalizar. Porém Roberta não ligava, muito menos ouvia. Sua ingenuidade não ligava os pontos e não conseguia interpretar os sinais. Ela nunca acordava. A vida não lhe exigiu isso.

Esse seu jeito avoado, por assim dizer, atraiu Mário. Ele era outro que não se sabe como se tornou adulto. Obviamente a afinidade foi mútua. Enquanto Roberta formava em qualquer curso do qual ouvir falar, Mário sobrevivia graças a uma graninha como vendedor. Nas horas vagas, enquanto ela assistia à Snapchat alheio, ele jogava videogame.

Mas os dias correram tanto até que viraram meses e como um relâmpago, passaram juntos alguns anos. Roberta, mesmo ingênua que era, não aguentava mais a preguiça de Mário. Ele não aspirava a nada além do sofá e da comida, sempre quentinha, da mãe.

Assim, meio de supetão, mas claro que ao ritmo de Roberta, após algumas conversas e exemplos, decidiu que era hora de melhorar a situação e depois de formar, resolveu criar um negócio com a família. Quem nunca esperou pelo melhor dela, surpreendeu-se. A empresa prosperou. Mas Mário continuava entre balcão da loja e o console dos jogos.

Roberta não aguentou. Gostava dele, mas aquela falta de energia e ânsia pelo futuro lhe incomodou. Eram os últimos dias de Mário com ela.

Ela só não contava com o fato de que nem todos os homens eram como Mário, o que era no mínimo irônico por esse ter sido justamente o motivo do término. Os homens que conheceu não suportavam o jeito de Roberta. Eles tinham vontade de lhe sacudir para ver se ela despertava e enxergava o implícito. Não tinha jeito.

Roberta não entendia por que nenhuma relação após Mário não prosperar. Tentou e insistiu até cansar das longas madrugadas sozinha em algum lugar badalado da cidade. Ao mesmo tempo que se sentia sozinha em casa, não sustentava a ideia de conhecer alguém que lhe puxasse para além dali, de onde estava confortável e feliz.

Até que teve a brilhante reflexão em um sábado de Zorra Total: um gatinho. Era mais de gato que de cachorro. A ausência de ação que teve com as pessoas em volta desapareceu quando decidiu pesquisar raça, preço, doação, e como manter o novo membro da futura família desfalcada.

Foi decidida ao abrigo de animais com a foto daquele filhote que lhe cortou o coração pela internet. Parecia tão sozinho e perdido como ela. Não precisaria mais ouvir críticas, aguentar chatices nem ficar sozinha.

Pronto, a caminho para casa se tornara mais uma daquelas "mães". Não precisava de um homem para fazer um filho, seu herdeiro já tinha nome e personalidade. Não precisava doar nada para os carentes de alimento ou roupa de frio, mas necessitava gastar com a ração mais cara do petshop. E assim, antes de girar a chave na fechadura de casa, ela havia se tornado mais uma daqueles que preferem animal a gente.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Visibilidade distorcida



Desiludida, saiu sem rumo. Ligou o carro com custo. Tinha economizado no combustível e insistiu em colocar álcool em vez de gasolina teimando contra o frio de São Paulo. Só queria saber de fugir. Não aguentava mais aquele comportamento.

Tinha se decepcionado com todos os homens da face da Terra. Menos com o Roberto. Ele era a última esperança do universo masculino.

"Seria só aquilo?" Se questionava. Mariana tivera vários homens em seus lençóis, e uma coisa era padrão: nenhum deles se esforçava. Não depois da paixão.

A paquera era a melhor fase, talvez por ser dependente dela, não encontrava a estabilidade com ninguém. Era tão adorável aquele vigor do macho para impressionar a fêmea. Mensagens instantâneas cheias de palavras devoradoras, rosas impecáveis, jantares a luz de velas e halls preto no hálito.

Mas passavam-se alguns meses e tudo ficava igual. Talvez com Roberto seria diferente. Tanto romance, ele tinha. Com os outros nunca encontraria isso

Já não havia ânsia. Depois da conquista, os homens não se importavam mais. Mariana não ouvia sequer um elogio depois de horas escolhendo a roupa, o perfume e passando toda aquela parafernália chamada maquiagem. Nada de mensagens trocadas, pelo menos não com ela. Agora eram apenas aqueles grupos de Whats App repletos de outras mulheres provocantes. Rosas, então? Só na floricultura. Os jantares ficaram por conta dela há tempos. Se não escolhesse o restaurante, iriam "no lugar de sempre". Como odiava esse comodismo masculino.

"Você não se importa mais!" Quantas vezes repetiu essa frase para todos eles. De nada adiantou... "Roberto havia de ser melhor que isso, não é possível!", assim a esperança ecoava.

Depois de pensar nisso tudo, se viu já na estrada. Dirigir era terapia. Ninguém lhe atrapalharia e Mariana não podia se distrair. Permitia-se apenas viajar nas letras de Roberto. Tão romântico, ele sempre foi. Ignorava as milhares de mulheres que ele conquistou. Não se atentou que ele, também depois que casou, deveria ter se acomodado no sofá de casa. Nunca pensaria nisso. Tinha que alimentar a ilusão e esperança.

À medida que as rodas giravam na pista, tentava recuperar o fôlego para outro suor masculino. Havia fugido do último. Os olhos dele não iam mais ao encontro dos dela. Antes de dar tchau, porém, deixou o sorriso para outro.

"Quem sabe um dia. Quem sabe um dia encontro um Roberto". Desejou e aumentou o som do carro.

"Todas as manhãs quando eu acordo, eu me lembro de você.
Todos os momentos do meu dia, não consigo te esquecer.
Diga meu amor o que é que eu faço
Pra não me lembrar do seu abraço, eu preciso te esquecer.
Entro no meu carro e ligo o rádio
E uma canção que traz você.
Tudo que eu vejo de bonito se parece com você.
Diga meu amor o que que eu faço,
Eu preciso arrebentar de vez
Os laços que me prendem a você.

Chuva fina no meu para-brisa,
Vento de saudade no meu peito,
Visibilidade distorcida, pela lágrima caída,
Pela dor da solidão"

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O vazio da liberdade



Despertou inspirada. Estava disposta a fazer daquele dia um dos melhores. Levantou da cama ao som de Chico e Caetano e se viu metida à poetisa. Isso tudo porque a agonia havia terminado.

- Quando a gente termina um longo relacionamento parece que a gente tira um peso das costas, né?
Indagou Rui.

-Estranha essa sensação.
Carla mentiu.

Nunca esperou tanto por aquela liberdade. Aquele relacionamento não dava mais, sufocava seu corpo inteiro. Quando atingiu a alma, tinha certeza que era o fim.

Aquela manhã era um recomeço, uma nova chance. E ao meio-dia já estava bebendo com o amigo. Queria ficar sóbria para enxergar melhor o dia, ver cada detalhe que lhe escapulia durante aquela relação que lhe roubava toda concentração. Mas também não via a hora de sentir o outro lado da noite. Por isso, da cerveja da hora do almoço foi direto para o Mojito às cinco da tarde.

Não fazia questão de conhecer ninguém naquele dia, mas se aparecesse, Carla não recusaria um beijo estranho. Queria tirar o gosto de Gustavo da boca. Tinha que tirar. E era seu dever tocar outro corpo. Não queria nenhum resquício dele. Ela tinha que provar que nela poderia visitar quem ela permitisse, não era apenas de um. Aquele relacionamento não tinha terminado bem. 

Ela que começou o dia leve, aliviada por estar sozinha, se viu determinada a rasgar tudo o que Gustavo havia esquecido no apartamento. Rui estava ali para ajudá-la. Mas o plano mudou por volta das onze e foram se embebedar. 

Logo o resto da turma chegou. "Pelo menos dos amigos não me desfiz", pensou e lembrou de quantas vezes havia brigado por conta da possessão doentia de Gustavo. Mas dos amigos nunca iria abrir mão. Sempre soube que com eles estava segura, poderia compartilhar qualquer segredo, falar sobre qualquer um, contar piadas sem graça e rir escandalosamente. Sorrir como se não tivesse hora para voltar nem nenhum lugar para ir.

Dali saíram para dançar. Quanto tempo não fazia isso! Ao som estridente da boate, cantou, sambou e bebeu um pouco mais. Poderia viver assim. Livre, mas cercada de quem gostava e de quem gostava dela.

Mas logo o pessoal começou a ir embora. Um tinha que dar o remédio para mãe, outro tinha o cachorro para dar comida, a outra já tinha filho pequeno... E assim cada um foi voltando para a casa e a noite terminou bem antes do que Carla achou que acabaria. Até que Rui também tinha que ir; havia conhecido Renato.

Assim que entrou no carro e pôs as mãos no volante, repetiu em voz alta para se convencer:
-A noite foi boa. Aproveitei bastante.

Não sabia por quê, mas se sentiu sozinha. Não era falta de Gustavo. "Deus me livre", pensava. Mas de uma companhia. Estava naquela cidade grande sozinha há anos e por mais que o relacionamento não tivesse prestado, antes tinha um abraço para lhe esquentar.

No fim da noite ainda tinha a sensação de Gustavo próximo à ela. Não havia provado nada para ela mesma. Ninguém pareceu muito interessante. Sabia que não queria passar a vida só e ao mesmo tempo tinha preguiça de começar tudo outra vez. O processo da conquista e do namoro era trabalhoso demais.

"Quem sabe outro dia", pensou antes de adormecer. Ela que acordou com as rimas da mpb, foi dormir com Lulu Santos na cabeça.

"Hoje o tempo voa amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir
Que não há tempo que volte amor
Vamos viver tudo que há pra viver
Vamos nos permitir"

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Depois dos trinta e poucos anos



Sabrina tivera várias fases enquanto crescia. Uma hora era patricinha, outra, da turma do punk. Quando se enxergou no espelho mulher, percebeu que as fases iam além do estilo da roupa e do gosto musical. Mandou mensagem de voz por Whats App para a amiga, determinada em dar alguma satisfação que ela não havia pedido:

-Mi, estou bem sozinha. Vou aproveitar a vida sem depender de encontros alheios.

Mirela sem entender nada, mas já prevendo alguma loucura por parte de Sabrina resumiu suas palavras em outra mensagem de voz:

-Você faz bem. É importante se encontrar e se amar para valer.

Sem mais nem menos a conversa parou ali. Mirela continuou o relatório que fazia no trabalho. Já eram dezesseis horas e o chefe tinha sido bem especifico quanto ao deadline: dezesseis e trinta! Não havia tempo para as lamentações de Sabrina.

Mas o carnaval chegava e Sabrina que tinha acabado de sair de um relacionamento de quatro anos queria respirar um ar leve, sem arrependimentos ou desilusões. Tinha deixado a fase do comprometimento para trás e estava em busca de aventuras. Isso não necessariamente envolvia um outro alguém.

Quando Mirela finalmente entregou o relatório ao chefe, saiu às pressas ao encontro de Sabrina. Haviam programado aquela viagem há menos de um mês, logo depois do Rafael ter sido apagado no repertório da amiga. Estavam prontas para curtir o carnaval de Ouro Preto.

Na cidade histórica e de ladeiras, elas, que eram do planalto central, se encantaram. As marchinhas já podiam ser ouvidas, a movimentação da cidade era característica de festa. Estavam prontas para aquele feriado, afinal o trabalho consumia Mirela, e Sabrina havia esquecido sua identidade com Rafael, logo no início do namoro; precisavam de um recomeço.

Assim que chegaram em Ouro Preto, foram em direção ao hotel. República compartilhada não era mais para elas. Com trinta e poucos anos nas costas era praticamente impossível a possibilidade de dividir uma casa com dez estudantes de graduação.

- Agora vamos curtir, pelo amor de Deus! Precisamos beber!
Disse Sabrina eufórica depois de terem tirado um cochilo. Aquela viagem de carro durou cinco horas.

E assim saíram, esperançosas por um feriado inesquecível. Mirela não queria dizer, mas só sentia o fedor de mijo misturado com cachaça barata na rua. Sabrina que tinha jurado amor a si mesma e queria provar que era autossuficiente emocionalmente só via garotos na busca disfarçada por homens.

Mesmo assim ignoraram os fatos e cantaram com o coro das marchinhas. Juntaram-se à turma dos bêbados e riram das pseudo amizades que fizeram na subida da ladeira.

Logo depois da meia-noite, as duas não sentiam mais as pernas. Com o corpo cheio de dores e a cabeça um pouco mais lúcida, Sabrina disse o que queria evitar durante todo o feriado:

- Vamos para o hotel agora? Acho que estamos velhas para isso.

Meio que desconversando, mas concordando cem porcento, Mirela consentiu:

-É, acho que deu por hoje.

No outro dia as duas acordaram cedo enquanto a cidade antiga, mas nesses dias jovem, dormia. Não eram nem nove horas da manhã.

-Mi, acho que não dou conta de mais um dia de festa. Estou cansada dessa vida de papos fúteis, beijos fugazes e álcool para disfarçar a rotina.

-Achei que fosse só eu. Só senti o mal cheiro e vi crianças em uma fase da qual já passamos. Precisamos encontrar outra válvula de escape. Essa não é mais a nossa praia.

Logo depois de tomarem o café-da-manhã, arrumaram as malas que mal haviam sido desfeitas e voltaram para Brasília. Quando chegaram na capital, queriam apenas descansar e não falar mais sobre esse carnaval. 

Mirela deitou em sua cama e foi procurar por um novo hobby no computador: aula de artesanato, rapel ou outra pós-graduação? Já Sabrina que deveria aprender um pouco de independência com a melhor amiga, quando pisou em casa se sentiu sozinha. Logo depois de fechar a porta daquele apartamento todo branco decidiu que era hora de se casar e constituir uma família.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O início de um erro


Ricardo, experiente como era em relacionamentos, tentava se distanciar de Marcela. Afinal, as coisas andavam bem em casa, como nunca antes estara. Mas havia algo em Marcela. Não conseguia discernir o quê. Só sabia que o nome dela estava em sua boca, mais que o tolerável, e já não conseguia disfarçar.

Marcela, por outro lado, reprimia o sentimento. Não queria aceitar aquele ar de mistério de Ricardo e se fingia de boba, desconversava. Não gostava de encrenca e ali sabia que era um caminho sem volta.

Durante as reuniões da firma, happy hours e na frente dos outros, conversavam tranquilamente. Porém tanto Ricardo quanto Marcela escondiam o coração acelerado, as mãos geladas e tentavam disfarçar as bochechas rosadas. Pelo menos Marcela sabia do perigo da cor branca na pele. Qualquer coisa era motivo para ficar vermelha. Ricardo era um deles.

A convivência era sinônimo de perigo. Em grupo a relação era segura, Ricardo se continha, mas sabia que não havia mais como se segurar, até que soltou, como um susto, em direção de Marcela:

- Vamos tomar uma cerveja qualquer dia?
 Logo se arrependeu e com medo de uma negativa, emendou: 

-Gostaria de falar daquele projeto que você apresentou outro dia. Tenho umas ideias das quais poderíamos discutir.

Pronto, estava de volta na zona de segurança, caso algo desse errado.

Marcela já se sentia rosada. O rosto ardia de calor. Mas o coração acelerado respondeu antes que a boca pudesse refletir um pouco, pois via o anel na mão esquerda de Ricardo sempre que passavam pensamentos assim na cabeça:

- Claro, vamos combinar.

-Se não beber, podemos tomar um café aqui na esquina. Com esse frio acho que combinaria mais.
Mais uma vez se envolveu em um recurso de segurança. Muitos conhecidos passariam por ali. Cerveja talvez fosse informal demais e o risco seria maior.

-Cerveja está bom, pode ser depois do expediente?
Marcela mal escondeu a voz trêmula. O que estava fazendo? Nunca se viu no papel de amante e já se enxergava dessa maneira.

-Sim.
Foi tudo que ele conseguiu falar.

Assim Ricardo voltou para sua baia. Nunca quis se envolver daquela forma. Já estava comprometido. Teve uma experiência semelhante, mas preferira terminar tudo antes. Dessa vez não. Gostava do que tinha, havia finalmente construído um lar para chamar de seu. Nos finais de semana gostava de ler, cozinhar, assistir tv e abraçar a mulher. Mas não via saída para essa paixão. Quando achava que a vida já lhe tinha dado problemas demais... Ele acabara de arrumar outro por pura displicência e descontrole.

Nenhum dos dois via a hora do relógio colocar os ponteiros no rumo do número seis. E assim, querendo e não querendo, as dezoito horas chegaram. Juntos pegaram o elevador, ainda com os colegas ao redor, conversavam sobre o trabalho, coisas de rotina. Nada de novo.

Mas ali, da porta do prédio do escritório ao bar, o clima começou a mudar. Ricardo começou a pôr em prática o pecado logo antes das seis. A mulher já estava avisada do retorno tardio para casa por conta de uma reunião que se prolongaria. Marcela, sabendo da sua futura condição, prometeu para si mesma que seria apenas uma aventura, que continuaria a conhecer outras pessoas. Aquilo não era para o bico dela, mesmo querendo experimentar Ricardo.

Já no bar falaram de tudo, menos de trabalho. Ambos sabiam que precisavam de um pretexto para o início desse erro, ainda mais na frente de conhecidos. Porém lá, agora, era apenas os dois. Conversavam sobre livros, filmes e música. Já sabiam que tinham muito em comum, pelo menos quanto à cultura. Até riram do sonho compartilhado em ter uma banda de rock.

Ali se esqueciam de fatores essenciais para não começarem uma história juntos: a diferença de idades e o anel dourado que Ricardo não tirava. Afinal, entre eles, a mão esquerda não tinha muito significado e os números nada mais diziam diante tantos interesses semelhantes.

Depois de alguns copos de cerveja, começaram os toques descontraídos. Por uma piada, por um reforço de argumento, tudo era desculpa para se tocarem. O efeito do álcool era o determinante fatal para concretizar o desejo reprimido. Nem se lembram qual foi o assunto decisivo para tornar tudo real, mas o sorriso sem graça de Ricardo e o olhar tímido de Marcela em certo momento se encontraram. 

O beijo foi inevitável. Ela podia sentir o bigode experiente na sua pele jovem, e enquanto o calor ardia, o corpo dele respondia. Tinham que sair dali. Aquele desejo era urgente demais para se arrepender.

Não havia tempo para pensar. Ele já tinha no rosto manchas de batom, e ela, o cheiro do perfume dele. Eram apenas os dois determinados a se descobrirem sem refletir sobre as consequências. Era o início de um adultério por parte de Ricardo e um caso por parte de Marcela.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O primeiro fim



Ao se afogar em lágrimas e se emudecer pelos soluços, desolada, se virou para a mãe e deu som para aquele pensamento que não saía da cabeça desde então:

- Eu iria casar com ele!

Era visível na mãe o olhar de dó. Mas sabia que aquela seria apenas a primeira experiência da filha no amor, e que o universo masculino infelizmente ainda lhe forneceria muitas desilusões.

- Talvez não era para ser, filha.

Foi tudo que conseguiu falar. Aquela frase pronta diante do sofrimento imensurável da filha. Sabia que a dor deveria ser intensa, pois naqueles tempos confissões eram difíceis. Os ares rebeldes da adolescência não davam sossego. Mas ali não tinha muito para onde recorrer. O pai nunca admitiu chorar por conta de homem. Talvez ele só enxergasse a situação dessa maneira, não conseguir ver ali o fim do primeiro amor. Afinal, quem nunca passou passou por isso?

Não queria admitir, mas a filha já previa o fim. Tanto que só chorava ao ver o então amado. Aquele relacionamento tinha data de término. Uma decisão de poder atravessar o atlântico pela primeira vez ainda era maior que o relacionamento. Viagens sempre foram seus maiores sonhos e melhores experiências, mas saberia disso apenas algum tempo depois.

Junto àquela experiência estrangeira, havia uma mudança mais definitiva. Apenas duas horas e meia de distância, mas que são infinitas horas de distância no mundo adolescente. Talvez esses dois acontecimentos do destino haviam se somado às lágrimas dela. E isso tenha antecipado o fim.

Agora nem se lembra que dia da semana era, porém se recorda que teria aula no dia seguinte. E as palavras ditas naquele telefonema são inesquecíveis:

- Você está pensando em terminar? As palavras soaram cheias de medo, mas já sentindo a predisposição dele.

-Sim.

-Mas por quê?

Assim, bem nesse momento, é que as lembranças se esgotam. Não se lembra qual o dia do ano comemorariam o primeiro aniversário. Só se recorda da importância da data: um ano de namoro. Datas sempre lhe foram importantes.  Imagine então para um garota de 16 anos.

Nem se lembra da voz dele, receosa, mas com certa convicção. As duas noites seguidas em claro e o pranto inconsolável é o que lhe marcou. As aulas nos dois dias seguintes se passaram normalmente, mas tudo  o que ela fazia era chorar.

Como viveria sem ele? Era com ele que fazia planos. Tinham tanto em comum. Tantas cartas escritas, juras de amor prometidas, desenhos rabiscados, longos beijos trocados, e as primeiras carícias...

Foi com ele que descobriu a desilusão. Ou melhor, sem ele. Passados os dois dias fazia questão de se mostrar por aí feliz. Mas só ela sabia que era um sorriso triste, vazio, sem nada para oferecer. Atravessou o atlântico e a tristeza ainda lhe corroía os ossos, junto àquele frio nunca antes sentido. Era tudo novidade.

A vida com 16 anos parecia tão dramática, menos irracional. Talvez a dureza dos anos e experiências posteriores lhe tinha deixado de alguma forma mais forte. Demorou demais para esquecer daquele cabelo cacheado, óculos preto e do personagem que ele criou para conquistá-la: o Teddy. Ele aparecia nas cartas juntos às palavras doces de um adolescente apaixonado.

Anos se passaram e outra paixão arrebatadora lhe pegou. Logo transformou-se em amor. Mais uma vez tinha certeza do mundo. Mas mal sabia que o criador do Teddy apareceria novamente, quase 10 anos depois.

Quando o viu, sorriu. Esperava por um cumprimento educado, meias palavras sem graça de um relacionamento mal acabado. Tudo que recebeu foi um olhar desviado. Ele tinha tanto significado na sua história, mas ele não demonstrava tal reciprocidade. Mesmo após todo esse tempo ele não lhe deu satisfações. Foi como aquele telefonema traumático de aniversário de um ano de relacionamento. Mas o engraçado da vida foi que a dor e o vazio não vieram, e sim a pena por ele ter que fingir que nada havia acontecido entre dois enquanto sua parceira a olhava desconfiada, pois deveria saber de quem se tratava.

"Não vejo mais você faz tanto tempo. Que vontade que eu sinto. De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços. É verdade, eu não minto.
E nesse desespero em que me vejo. Já cheguei a tal ponto de me trocar diversas vezes por você só pra ver se te encontro.
(...)
Agora, que faço eu da vida sem você? Você não me ensinou a te esquecer. Você só me ensinou a te querer. E te querendo eu vou tentando te encontrar. Vou me perdendo. Buscando em outros braços seus abraços. Perdido no vazio de outros passos. Do abismo em que você se retirou. E me atirou e me deixou aqui sozinho."

Hoje, nem mesmo a música, com a qual derramou várias lágrimas por ele, significa alguma coisa. Pois o primeiro amor foi assim, arrebatador, mas esquecível.







terça-feira, 14 de junho de 2016

Puro aquarianismo



-Ai, Deus, por que eu mandei aquela mensagem?

Ser aquariana é assim. 

É querer arriscar tudo sem perder o todo. 
Ser impulsiva e se arrepender no segundo seguinte.
Ficar quase dois anos sem escrever sobre si e de repente querer digitar sobre a vida inteira.
Compartilhar cenas sem declarar detalhes.
Ter milhões de dúvidas, e só demonstrar certeza.

Pessoas de aquário são assim mesmo. Quando quer se abrir, se cala.

Acredita em destino, mas quer surpresas.
Quer fazer parte tentando provar sua identidade.
Adora um misticismo, mas não consegue ficar sem planejamento.

Tem milhões de rascunhos e só algumas publicações.
Quer dizer, mas tem medo de falar.
Gosta de se mexer, mas tem horas que não consegue sair do lugar.

Venera o inédito, mas não vê a hora de viver do previsível.
Faz planos, sonha alto e ao mesmo tempo quer voar e ficar por aqui mesmo.

Não sabe se deixa essa página em modo privado ou público.
Não sabe se continua ou se pára.

Aquarianos nunca sabem de nada.