terça-feira, 9 de dezembro de 2014

De Morrinhos ao Guaraí

Alguns lugares marcam certas fases da vida. Deixei de frequentar vários locais, pois não há motivos para ir. As pessoas não estarão mais lá.


Lembro com muito carinho de uma cidadezinha no interior de Goiás que  eu ia de vez em quando na minha infância. Adorava visitar a tia Miraci e o tio Nego em Morrinhos. Sempre quando chegávamos, eles e o restante da família estavam sentados naquelas cadeiras do interior, no alpendre (palavra gostosa que quase não se usa mais) esperando a gente chegar pra nos levar para a cozinha.


Ai, se a gente não comesse nada! Mas não tinha como recusar. A mesa da minha família (não sei se é só tradição goiana) foi sempre farta. Tinha pão de queijo, café, leite, toddy, suco e claro.... o bolo da tia Miraci. Não me lembro se era de cenoura com chocolate, mas sei que a cobertura era o que eu mais gostava. Era um chocolate açucarado. E eu sempre repetia. 

Adorava aquela casa. A cozinha aberta...Dava pra ver o céu quando se estava na mesa comprida de madeira. Eu contemplava aquela cena com o tio Nego na ponta da mesa, minha vó papeando com a tia Miraci, meus pais se revezando pra conversar com tanta gente e eu e meus irmãos, claro, comendo.

Outro lugar que também me lembra infância com cadeiras traçada em de fios (informação do Google porque pra mim sempre será cadeira de interior que se coloca no alpendre ou na calçada - depende da sua curiosidade sobre o movimento na rua) é o Guaraí. Cidadezinha do Tocantis, onde minha avó tinha fazenda.

Sentávamos nessas cadeiras pra chupar picolé com ela - que comprava uma sacola cheia, sem dó e tomava vários pra espantar o calor - ou melancia, na casa da cidade ou no alpendre da fazenda, enquanto conversávamos, revezávamos o uso da rede, e esperávamos o tempo passar matando as formigas  queimadas com lamparina.

Minha avó não fazia o mesmo bolo da tia Miraci, mas tinha seu jeito registrado no que servia, e era tão bom quanto.  Ela fazia um biscoito de queijo espetacular. Quando era a vez do pão de queijo (para os não-goianos biscoito e pão de queijo são coisas diferentes), ela servia com quibe cru e montávamos um sanduíche. Que delícia ficava! Da fazenda, não esqueço do requeijão que ela mesma fazia. Nunca mais comi nada parecido.

Hoje, são comidas que não como, lugares onde não vou, e objetos e palavras que não uso mais. E tudo isso me lembra das pessoas que já se foram. Toda essa simplicidade me corta o coração por saber que não tem volta. Mas também me faz refletir sobre o que a vida nos dá (e é tão bom, mas não damos valor às vezes) e tantas outras coisinhas que nos marcam, que demonstram carinho, que traz momentos felizes e compartilhados.

Deve ser a distância de casa, uma saudade que eu mal admito... Mas que vontade de voltar no tempo pra poder viver tudo isso outra vez!


3 comentários:

Flá Costa* disse...

Quanto tempo que não venho aqui, tanto tempo que não falamos mais! Rê, tanta coisa mudou na minha vida, adoraria poder compartilhar com você.
Se eu não me engano você veio morar mais pra perto de mim, será que um dia a gente consegue marcar esse encontro? Será que você ainda sente vontade? Enfim, vejo que você continua escrevendo coisas que eu adoro ler. ♥
Apareça!

Thalízia Magalhães disse...

Renatenha; que delícia ler o seu texto! Devaneios nostálgicos de um tempo que não volta né?! Todo mundo tem o momento no que nos vemos nessa situação. Lugares que não vamos mais, coisas que não fazemos mais, objetos que não usamos mais e pessoas que não vemos mais. Bom saber que tudo isso fica bem guardadinho dentro do peito. Inclusive as lembranças ruins.
Adoreiii!!!!

Kamilla Barcelos disse...

Que bela surpresa encontrar seu blog. Seu texto me trouxe várias lembranças legais. Na minha infância, a minha família ficava muito no alpendre (amo essa palavra também.)