sábado, 27 de julho de 2013

A voz da morte e outras lembranças

Quando minha vó se foi, o que mais me marcou foi ouvir a voz dela gravada em uma mensagem de celular. E me doeu o coração quando ouvi meu pai dizer que iria apagar aquele restante de lembrança tão palpável. Mas na hora entendi que seria melhor assim. 

Hoje tenho minhas dúvidas.

Ainda posso imaginar tocando o interfone da casa dela e dizendo "é nóis" num tom de brincadeira. E quando ela abria a porta, tinha que pedir a benção. E lá estava ela, com o cabelo preso, de camiseta, short e sandália. O rosto é muito familiar na memória. Mas a voz...

Às vezes me policio para não lembrar demais, tenho medo da voz dela se perder em algum lugar e eu esquecer.

A mesma coisa foi semana passada quando uma tia também se foi. Ela era muito presente na família e é muito estranho falar sobre a tia Ausenir no passado porque em todas as festas em família e doença de algum parente ela estava lá. Ou para comemorar ou ajudar de alguma forma. Tudo ainda está na minha cabeça: a risada, as piadinhas de conotação sexual que deixavam todo mundo envergonhado, e os almoços de domingo com músicas do tipo "besa-me, besa-me mucho' enquanto a família comia charuto.

Mas a voz dela...É muito estranho saber que nunca mais ouvirei as vozes das duas. Ainda me pego reparando uma mulher mais velha, do cabelo tom caju para ver se é a minha vó. Nessa hora percebo que não vou mais encontrá-la nessa dimensão. Dói a alma. Mas basta encontrar outra mulher parecida para eu dar outra verificada.

E não bastam as vozes, há os sonhos. Toda noite, praticamente, desejo no silêncio do quarto sonhar com alguma delas, ou então com a tia Miraci, com quem tive um agradável diálogo enquanto dormia, assim que ela se foi.

Duas noites atrás foi com a minha tia Ausenir. Ela, toda alegre, disse que iria me contar como era o céu. Mas não consigo lembrar da resposta. Só sei que a conversa foi longa e agradável, e eu sabia que ela já havia partido.

Com a minha vó já sonhei várias vezes.A última e mais recente, ela apareceu em formato de uma flor roxa e delicada, no quintal da casa dela, antes da reforma. Era tão real que no sonho comecei a chorar de saudade.
Acho que o mesmo acontece com lembranças como as vozes. É uma saudade que aperta, até quase torcer o peito. E eu me controlo para não "gastar" e não esquecer até a hora de checar se não era a minha vó naquela esquina.