quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Correria

Quando vivo dias muito corridos, aqueles que prometem muito cansaço pro corpo, é começo a sonhar com o passado. Todos os dias, no caminho para a parada de ônibus, passo por uma escolinha. Naquele momento desejo ser criança de novo chorando pela ausência da mãe, mas que logo esquece e vai correndo pro parquinho.

Mas ontem pulei essa etapa e lembrei do ensino médio. Achei graça de uma amizade desgraçada. Nunca entendi direito aquela menina. Depois de um tempo desisti de entender e conheci pessoas mais interessantes.  

Enquanto aquela amizade existia, ela se achava. Se eu conversasse com outras garotas ela virava a cara pra mim. Não sei porque cultivei aquela relação. Acho que me faltava personalidade.

Ela olhava minha nota e se vangloriava por ter ido melhor na prova. Ela invejava meus olhos claros e cabelos lisos enquanto alisava e pintava o seu cabelo e dizia ser mais bonita. Se achava cantora e tinha uma péssima voz, jurando que se parecia com seu ídolo. Coitada, ainda acho que com 20 e tantos anos ainda acha isso. 

Lembrei também quanto mudei meu lugar na sala de aula. Foi aí que conheci outras garotas. Mais humanas e mais gentis. Sem comparações entre nós. Ainda não sei o que deu errado e deixei elas de lado e voltei pra aquela estranha. Fui bastante amiga dela, mas ela nunca retribuiu o mesmo.

E depois que esse período sombrio passou voltei pras meninas gentis. E foram com elas que tive os melhores momentos naquela escola. Estudamos, fofocamos, passamos cola, colamos, sorrimos e choramos juntas. Éramos cinco. 

Mas o ensino médio passou e a minha cidade mudou. E ontem bateu uma saudade delas. As conversas com riso fácil, sem disputas, sem preocupação com emprego, nada de vida adulta, da festa surpresa que armaram pra mim quando voltei do intercâmbio.

Hoje mantenho contato apenas com uma delas. Foi com ela que me identifiquei mais. Mas em relação às outras...viramos adultas e deixamos nossas ocupações nos ocuparem tempo demais. Tempo demais para nem mais dizer um oi no Facebook, nem pra avisarem quando vêm pra cá ou pra eu avisar que estou lá.

Tenho saudade delas, todas juntas. Do riso fácil daqueles tempos.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Amanhã é outro dia, não é?


"Quando você tiver que enfrentar a vida, você vai entender". Era algo assim que seus pais lhe diziam. E ele os encarava com olhos arregalados e assustados. Mas no fim do dia ao voltar o pensamento daquela frase, achava besteira de adulto. Afinal, ele também enfrentava a vida. Acordava cedo e lutava contra o sono e a fome naquelas intermináveis aulas de física, química, matemática e todas as outras.

Mas ele não sabia nem da metade. E talvez hoje, quando lembra quase todas as manhãs dessa frase, ainda não saiba de muita coisa, já que costuma ouvir outra coisa. "Você está começando só agora". E nesse começo ele já percebeu várias coisas que passavam despercebidas naquele mundo colorido de antes. Hoje ele é mais acinzentado. O mundo e ele mesmo.

Amizades não são infinitas. 
O amor pode encher o saco.
Traição é mais comum do que se imagina..
Amigo e colega também podem trair.

Com isso tudo e um pouco mais, sua fé no mundo diminuiu um pouquinho. 
Relembrou de uma música.
"Queria ser como os outros e rir das desgraças da vida ou fingir estar sempre bem. Ver a leveza das coisas com humor. Mas não me diga isso! É só hoje e isso passa...Só me deixe aqui quieto. Isso assa. Amanhã é outro dia, não é?" Renato Russo.

domingo, 9 de setembro de 2012

Terno

Bastou um momento. Eu esperava na fila e guardava o seu lugar. Você se virou e foi checar o que estavam servindo no bufê.

Bastou um instante. Foi naquele segundo que eu contive uma lágrima insistente. Uma lágrima de felicidade por saber que você é meu e eu sou só sua. 

Bastou um minuto pra eu perceber que as borboletas estavam outra vez no meu estômago por você. Que a medida que você se afastava, a cada passo dado, eu entrava em pânico porque queria você ali comigo. Não quero que você trilhe seu caminho sozinho. Eu quero estar ao seu lado.

Bastou um paletó e uma gravata pra eu me apaixonar mais ainda. Um terno e um único cabelo comprido.Eu  achava que morrer, mais ainda, de amores era impossível. 

Bastou você voltar pra eu sentir minha paz de novo. Basta só ter você, amor. Percebe?

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Primaveras


Ela se prendeu. Plantou raízes. Às vezes não quer nem ser aparada. Tem medo da tesoura. 

O lugar onde plantou suas mudas até que não é tão ruim. Demorou pra florescer logo de início porque não foi ali que nasceu, mas depois que conheceu as outras espécies que a rodeavam naquele jardim conseguiu abrir a primeira flor timidamente. Tomou gosto. Claro que se lembra do primeiro canteiro. Ela era regada todo fim de tarde por uma senhora. "Tem que molhar as plantas quando o sol já está frio porque com  sol quente  não adianta nada", ouvíamos ela  ensinando aos netos.

Ela não pensa em voltar para aquele canteiro. Teve lindas memórias recheadas de aromas e cores. Mas também não quer ficar a vida toda nesse jardim.

Sonha em ficar um tempo em um parque bem grandão e quentinho. Ainda tem vontade de conhecer outros adubos, espécies e paisagens. Só de pensar nessa possibilidade suas flores se abrem. E o calor do sol lhe abraça porque sabe que algum parque do mundo te espera. Porque ela sabe que esse é só o início do seu florescer. E que há ainda várias outras primaveras lhe esperando.



quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Se ame, menina!

Sempre pagou de bonzinho, jurou amor eterno e até deixou marcado no seu calendário imaginário a data do casamento. Os dois eram só amores. Era tanto carinho que os cantos do apartamento se enojavam daqueles beijinhos, "amorzinhos" e "te amo" que trocavam.

Foram muito felizes. Talvez no início ele achasse que ela era muita areia pra ele e a amava incondicionalmente. Depois guardou essa ideia num potinho miúdo lá no canto, atrás dos produtos já vencidos, na despensa do apartamento. Deve ter bisbilhotado na fresta da janela os potes que a vizinha tinha, tão melhores que aquela ideia guardada.

E foi num dia desses bravos que a TPM deixa a gente com aquela vontade de doce que ela acabou achando aquela ideia. Ela parecia saborosa e doce. Tudo que precisava. Ela deixou o amor próprio de lado e jogou no colo dele. O amor que tinha era todo dele.

Ela, ainda muito menina, acreditou nas promessas e avoada que só achava que tudo que aconteceria com as amigas, aconteceria com ela. Pronto, ele terminou tudo. Suas amigas agora estavam solteiras. "É assim que funciona", dizia. Mas foi desse jeito, meio do nada. "Ok, alguns motivos eu entendo", pensou. Ficou confusa e não entendeu. Uma outra surgiu no meio do adeus.

Mas como o amor dela era todo dele, quando ele pediu pra voltar, não rendeu aos encantos. Os cantos do apartamento ficaram incomodados outra vez com tanto nhênhênhê de casal apaixonado. Era tudo festa de novo.

Minha vó sempre dizia que mentira tem perna curta. E a protagonista da história viveu isso na pele. Ele se relacionou com a outra. Aquela outra do adeus tão dolorido. Tudo bem, pensou, porque estavam separados... Mas a mentira foi contada pelas metades. A metade deixou a vergonha de lado e resolver mostrar o outro lado. A outra surgiu na história bem antes do adeus.

Foi muito choro. Várias ligações para as amigas contando todos os detalhes. Coisa de menina mesmo. Mulheres não têm mais tempo nem mais saco pra isso. Detalhar cada mensagem, cada palavra e cada gesto. Infelizmente o amor dela ainda está com ele. "Ele deve ter roubado de mim. Deve ter pego cada migalha do meu amor próprio e jogado ao redor do seu corpo", pensou.

Não deu outra. Mais uma vez outro perdão. Mais uma vez juntos (?).
As amigas já planejam o sequestro dele. Recompensa: o amor próprio dela.