sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Rock star

Eu teria um lindo namorado. E sairia pra balada todo fim de semana. Tudo pra compensar as vezes que meus pais não me deixaram sair de casa. Em fevereiro, no feriado do carnaval eu iria assistir uma escola de samba no Rio. Ah, assistir só não. Deve ser sem graça ficar na arquibancada. Talvez eu sambaria também. E eu ensaiava os passos pra minha platéia imaginária. Todo o jardim me assistia. Lá era onde meu público estava.

No outro dia pintava em um pedaço de papel, no formato oval, a cor marrom. Eu era a Angélica. Colocava uma diadema toda torta na cabeça pra fingir o microfone igual ao da Sandy e da Eliana. Fazia mingau de aveia e conversava com o Louro José na cozinha lá de casa. E meu programa era a tarde, às três horas. Quando a fome batia.

Ah, tudo que eu queria era ter 16 anos logo. Não sei porque sempre sonhei com essa idade. E fiz dela a minha época preferida. Continuava a brincar. Toda quarta-feira por 10 reais a hora, divido por três, alugávamos o estúdio pra fingir ser rock star. Com a minha prática de fazer da área de casa o meu palco, eu era experiente e podia assumir o vocal. A meia-calça rasgada, o all star sujo e a saia xadrez me davam mais confiança. E as aulas de violão me levaram pra guitarra.

Escrever, claro. Também estava na jogada. Não sei da onde que vinha essa sede e facilidade. Ainda não consigo explicar. Mas o meu boletim escolar resumia que a única coisa que eu conseguia fazer bem era a redação. E brinquei mais um pouco. Entrei no jogo pra ser compositora também. Minha colega de banda colocava os ritmos nas músicas. Na mesma facilidade. Em uma tarde tínhamos outra melodia. E na quarta praticávamos.

Se tivesse curso de se tornar um rock star eu teria feito. Em vez disso fiz Jornalismo. Tá legal. Hoje também não gosto de carnaval. Prefiro só curtir o feriado em vez daquela festança toda. Nunca fui pro Rio nessa época. Ainda bem. É, tenho um lindo namorado. Mas não vamos pra balada todo fim de semana. Desde que começamos a namorar acho que só fui duas vezes. Não preciso compensar aqueles fins de semana. Mas eu ainda preciso sonhar. Sonhar em ser uma rock star.

Um comentário:

Aline Netto disse...

Saudades de ler aqui!
Coisa linda como sempre!

Bjs