segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Caramelo

Foi numa dessas tardes quentes depois do trabalho. Ônibus cheio ultimamente tem me deixado meio zonza e até com um pouco de ânsia. A medida que mais gente entra, mas sufocada eu me sinto. Mas o que importa era que pelo menos eu estava sentada.
E foi antes da ânsia vir e depois de festejar silenciosamente o meu lugar no banco que olhei pra frente. Por um momento achei que fosse minha vó, mas depois de lembrar dos fatos, há um pouco mais de 6 meses, caí em mim e percebi que não era ela.
Os cabelos eram os mesmos. O tom era aquele que as caixinhas de tintura chamam de caramelo, ou algo parecido. Entre o ruivo e o castanho. O corte era curto, provavelmente não chegava até os ombros. Mas não dava pra saber porque os fios estavam amarrados, assim como ela costumava usar muitas vezes.
A pele também me lembrou dela. Dava pra notar que tinha a experiência marcada pelos poros, mas penso que aquela mulher no ônibus deve ter feito alguma cirurgia, assim como você fez, quando ainda se preocupava com a aparência, pois quase não havia rugas e a pele era lisinha.
Observei-a, mas não fiz questão de prestar atenção na conversa que ela mantinha pra manter a imagem de minha vó para não quebrar a magia. Eu ainda posso ouvir a voz da minha vó. Sua risada alegre. E faço questão de esquecer seu semblante triste nos piores dias.
Me deu vontade de pedir bença, como dizíamos. E ouvir seu amém e logo um abraço apertado. E me arrependo de não ter me dedicado, pelo menos, um pouco a mais como neta. E me arrependo de não ter conversado mais. E não ter passado mais tempo juntas.
Mas agora é tarde demais. Hoje a mulher estava no mesmo ônibus que eu outra vez. Dessa vez sentei ao lado dela. Talvez numa tentativa besta de fazer um pouquinho mais pela senhora, vó.

Com sua bença peço desculpas por esse texto ter demorado tanto pra sair.


4 comentários:

Del Santana disse...

Que texto bonito. Olha, eu também fico pensando que não sou uma neta dedicada :/

Ontem mesmo tive um susto com a minha avó. Ela passou mal e, na hora, eu fiquei pensando como os meus dias ficariam mais vazios sem ela - mesmo não convivendo com ela todos os dias.

Foi um alívio vê-la melhor.

A sua vó também está bem, onde quer que ela esteja ;)

Beijo

aline disse...

ô gente, me emocionei lendo.
já passei por coisa parecida, sinto taaaaaanto a falta da minha vó.

Flá Costa * disse...

ô Rê, é isso mesmo? você me fez chorar no trabalho?

lembrei do meu avô... dá uma saudade que aperta...

lindo texto.

beijos!

Jéssica Amâncio disse...

Quanta beleza, também compartilho do sentimento. A minha sempre me chamava pra tomar café, e lembro do pão com manteiga que tinha outro gosto, não como o de hoje. E da pipoca que sempre estava à espera.