domingo, 22 de janeiro de 2012

Tranças

Trocamos olhares várias vezes durante a cerimônia. Ela ali, com uns 6 anos de idade, e eu, prestes a completar 22. Ela me observava e sorria discretamente. E eu, sem a certeza de que era comigo, olhava a dona do cabelo com tranças com saudade da minha inocência infantil.
Eu me via através daqueles olhinhos que tanto tinham por ver ainda. Eram tantos sonhos, tantas realidades naquele universo de brincadeiras, tantas perguntas sobre o mundo adulto e uma pressa danada para me tornar uma daquelas.
Hoje eu era uma daquelas. Uma daquelas que eu olhava e tanto admirava. Prestava atenção no comportamento. Na roupa. Nos acessórios. No cabelo. E na maquiagem. Uma daquelas mulheres que eu pensava: quero ser assim quando eu crescer.
Mas nessa tarde não eram os meus olhinhos. Não havia mais diminutivo para as minhas características. Eu já era adulta. A idade que está me esperando na próxima sexta-feira me prova isso. Eram os olhos de uma criança.
E para o meu espanto você se atreveu a me cumprimentar depois. Eu sempre fui uma criança tímida e calada. Você teve a coragem de vir falar comigo e eu me assustei. Você perguntou o meu nome e eu perguntei o seu.  Retribuí os tantos sorrisos que você me deu.
O prazer foi meu, Isadora.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Os dias em Capeside

Uns querem Pasárgada. Eu quero Capeside. Uma cidadezinha interiorana no sul dos Estados Unidos. 
Enquanto isso tenho que aproveitar e enjoar dessa correria. Das distâncias nas ruas largas e sem semáforos da capital. Do barulho da vizinhança. Do estresse da rotina. Da noite em diferentes restaurantes. Da seca bruta e da chuva teimosa.
Mas quando chegar a hora eu quero ir pra Capeside. Eu já a invento durante as fugas da cidade. Pegamos o carro e respiramos um pouco de natureza. De paz e tranquilidade. Lá não existe hora certa. Nem mesmo o relógio importa. A hora é a gente que faz.
Em Capeside vai ser assim também. Lá naquela casa grande pra nós dois. Toda branca. Com uma varanda na frente e só silêncio do lago da frente. O jardim cuidado. Nós já estamos craques em jardinagem e culinária com todo o tempo livre ao nosso favor. A cidade não fica longe, mas também não é muito grande. Ela é tranquila assim como as nossas fugas. Os nossos dias são recheados de amor. Aquele que só a gente entende. Eu de mau-humor e você me arrancando sorrisos ao me provocar.
Lá vamos lembrar da nossa juventude corrida. E riremos das minhas crises de ciúmes. Da sua vontade de abraçar o mundo de uma vez só e conhecê-lo inteiro em apenas um dia. Recordaremos com saudade do tempo das crianças pequenas. Da arte que elas aprontavam e a dificuldade de fazê-las comer. 
Serão tempos bons. Assim como os de hoje que às vezes eu esqueço de valorizá-los como deveria. 


segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A espera do arco-íris

Era outro réveillon com a família. Sabia que nada de excitante iria acontecer. Passou apenas duas viradas de ano longe deles. Da primeira vez pagou caríssimo por uma festa que nem se fez valer pela bebida.Da segunda e última, foi em uma festinha de conhecidos que durante a contagem regressiva estava bêbada demais e sozinha demais pra abraçar e receber o abraço de alguém.
Sabia que iria ter a companhia de vários brasileiros, apesar de não estar no Brasil. Não criou muitas expectativas. Ainda bem. O ponto alto da noite foi aquele hambúrguer só de pão e carne.
Mas nem ligou porque 2012 é número par e significa sorte para ela. Porém o ano não começou da melhor maneira.
Na volta para casa todos os voos atrasaram. Perdeu o último voo e a mala ficou em outro lugar que não era  destino final.
As chuvas de Brasília misturadas com o calor e o ar condicionado de Buenos Aires já a deixaram gripada. Acordou um dia com um torcicolo que quase imobilizou o pescoço. Bateu forte na porta com a testa. Foi na biblioteca pra pegar livros e ela estava fechada.
Achou que era hora de parar de superstição. O ano anterior foi difícil, mas teve seus momentos felizes. O ano novo não seria diferente.
"Depois da tempestade vem sempre o arco-íris". Lembrou dessa frase.