domingo, 19 de fevereiro de 2017

Uma vida mais viva - sem mídia social e com menos consumo



2016 foi uma jornada. Sim, sei que estamos em fevereiro e já já é carnaval, mas meu ano começou para valer há pouco. Ano passado eu pensava sobre várias questões. Uma delas era o meu vício com o mundo online.

Acho que foi por volta de 2002 que os blogs surgiram na minha vida. Nessa época eu já sabia um pouco de html, porque o Blogger ainda não tinha uma opção de template tão interativa e fácil como hoje. Conhecimento esquecido hoje em dia, mas aprendido fuçando e com a ajuda de uma amiga. E depois dessa necessidade de publicar o dia-a-dia de uma adolescente de classe média, veio o Orkut que simplificou as publicações. Na época acho que eram 10 fotos permitidas por álbum ou perfil, não me lembro ao certo, nada de "overposting".

Mas os anos passaram e eu estava sempre conectada. Sempre a procura de uma aprovação invisível e um desespero de registrar cada momento da minha vida, pois sem essa validação era como se isso não tivesse existido. Digo "era", porque há 15 dias fechei minhas redes sociais: Instagram e Facebook.

Do Facebook eu já tinha conseguido afastar antes por cerda de um ano. Não precisava de um contato direto com uma sociedade que respira ódio e intolerância. Tomo algumas coisas para mim. Ainda estou em um processo de conseguir separar o que me atinge e o que não me toca diretamente. É realmente um processo, mas ficar distante das mídias sociais com certeza tem me ajudado.

Como foi a segunda tentativa de desativar o Facebook, esse passo foi fácil. Difícil mesmo foi o Instagram. Foi desapegar de todas as pessoas que de alguma forma fizeram parte da minha vida, pois as que estão presentes atualmente dispensam contato via comentários em fotos. Elas têm meu número, sabem onde eu moro. Complicado é desapegar desse passado que a gente insiste em correr atrás para ter nada em troca, apenas fofoca.

Outro ponto do Instagram que me machucava era o consumo. Eu seguia várias blogueiras e meu fraco é maquiagem. Portanto eu tinha uma rotina em que durante o meu almoço solitário eu vasculhava novos produtos lançados, alguma outra técnica para disfarçar alguma imperfeição para fingir que somos todas perfeitas e ter aprovação dessas blogueiras que nem sabem da minha existência.

O mais irônico é que eu fechei minha conta no Instagram por acidente. Achei que fosse um bloqueio temporário e que em um momento futuro eu ainda poderia ter acesso às minhas fotos e salvá-las. Mas quando eu desativei, perdi meus dados e todas aquelas fotos desesperadas por um número X de "likes". No primeiro momento fiquei meio perdida e não acreditei que havia feito aquilo. Porém passado o susto, veio o alívio. Eu poderia viver livre sem ter de tirar foto de tudo que eu estivesse vivendo, provando ou vestindo.

Afinal, eu nunca tinha tido uma relação saudável com essas mídias e de uns anos para cá, só piorou. Anterior a esses acontecimentos fiz uma viagem que de certa forma me mudou e ainda está me mudando.

Antes eu havia saído do país apenas para os Estados Unidos (centro do consumismo) e para a Argentina (não diferente o bastante para se ter um choque cultural). Dessa vez eu fui para a Tailândia. Não esperava muito, pesquisei pouco - mais sobre os pontos paradisíacos -, mas o que me tocou foram dois lugares em específico. 

Para chegar em Bangkok, fizemos algumas conexões e uma delas foi em Pequim. E como aquele céu me chocou. Eu sempre amei assistir ao pôr do sol e ver o céu cinza por conta da chuva que está prestes a cair quando o vento também anuncia a chegada do temporal. Mas na China nada disso é possível. O céu é cinza por conta do meu e do seu consumo desenfreado. A poluição é tanta que não é possível enxergar os aviões decolando.

Isso me entristeceu muito, assim como todos os animais na ruas da Tailândia. Cachorros e gatos (vários com o rabo quebrado ou cortado) vagando pelas ruas, além do mal cheiro por conta do lixo e esgoto nos rios que atravessam a cidade. Mas houve uma cena mais forte que foi a caminho do aeroporto de Ko Samui em que passamos por um aterro sanitário a céu aberto. Como foi chocante ver e sentir o fedor dos nossos hábitos.

Diante desses cenários, no retorno para casa, fiz uma promessa de não comprar nada relacionado a maquiagem por 6 meses. Mas já pretendo estender esse prazo quando a data limite chegar. Eu tenho muita coisa e não preciso de mais. Para ser sincera, nem preciso de tudo que tenho. Quando cheguei em casa reorganizei minhas coisas e percebi como eu estava descontrolada, em busca de um preenchimento desse vazio que nunca chegava junto às encomendas do correio.

Nessa viagem eu pude perceber que não é o material que preenche a gente e sim pessoas e experiências. Pela primeira vez fui forçada a viajar com uma mala pequena por conta de algumas linhas aéreas econômicas que usamos e desde o início achei divertido o desafio. Viajei com 4 blusas, 1 vestido, 1 macaquinho, 1 saia, 2 shorts, 1 calça jeans e 2 calças de tecido. Ah, e 3 sapatos. E não é que não me faltou nada? Tive roupa para todas as ocasiões. Confesso que por ser um processo tive um surto de compras biquinis e maiôs antes de embarcar e nesse ponto eu exagerei na conta, até porque não sou frequentadora assídua de piscinas nem praias.

Esses são alguns dos pontos que quero mudar em 2017. Outras coisas estão acontecendo ainda como deixar de usar absorventes descartáveis e fazer uma tatuagem (sempre quis, mas nunca tive coragem), que aliás já fiz.  Nessa direção mais ecológica, mais saudável comigo e com o mundo pretendo direcionar o meu ano.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O abraço do adeus




Sei lá se foi indecência do destino, mas uma despedida mais simbólica que aquela não haveria de ter. Não nessa vida.

Marina sabia que provavelmente não se encontrariam mais naquele caos de cidade. Por mais difícil que fosse, todo dia, ao pegar o metrô, desejava que o mesmo destino sacana os fizessem, sem querer, esbarrar no dia-a-dia do outro. Mas por mais que torcesse, sabia que as mínimas probabilidades não ajudariam. Ela não conhecia ao certo o roteiro de Joaquim, mas sabia que seu caminho de casa não o levava àquela direção.

Pois, enfim, era um último breve adeus. Teve pena de todo aquele tempo que deixaram de viver. Entretanto, era também uma espécie de alívio. Não se preocupou com a sensação. Queria estar lá e ponto. Pronto.

Sabia que não faria diferença. No fim nada existiu e talvez tivesse sido tudo uma falta de ilusão meio sem graça.

E quão irônico o destino seria! Tiveram poucos minutos com tanta gente em volta que expressões e desejos faltaram. As palavras foram resumidamente breves. Podia-se apenas perceber a risada desesperada dela e a falta de jeito dele.

Iriam dar um último abraço, um pequeno toque que antes já significou tanto. E assim, o presente impediu. Os olhos dos outros nem notaram. Talvez até tenham percebido alguma tensão do momento e resolveram ignorar o sexto sentido.

E o último abraço nunca aconteceu. O destino já dando gargalhadas de algum lugar não muito longe, os impediu da ação. Marina e Joaquim bem que tentaram, mas naquele instante a pretensão do toque já bastou. 

Ouviu-se um "boa sorte" de um lado e o "até mais" de outro.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A complicação de se tentar viver o simples



À medida que o tempo passa e a idade se torna um número maior, as coisas parecem ficar mais complicadas e ao mesmo tempo, simples. Porque na verdade nada é do jeito como antes tinha certeza. Complexo, não? Não nego.

Mas não nego que às vezes invejo os simples. Nem jornal assistem. Senso crítico não existe para alguns que se ditam entendedores da vida e da política. Cada um usando alguma plataforma para ditar a ideologia com a qual mais se identifica quando na verdade apenas cospe para cima, pois que não faz a mínima diferença para quem não concorda. E assim cada um segue seu rumo tentando convencer a todos de sua verdade quando na realidade ninguém liga.

Eu mesma bloqueio. Tento fingir que nada me afeta. Viver em um casulo é bem mais fácil que se deixar atingir por tanta energia assim. Competição disfarçada de justiça, inveja dissimulada, falta de amor e paciência, e talvez o maior de todos os sentimentos dessa nossa nação esquisita: intolerância. Mas quem me dera fosse privilégio de um só lugar. Não é. Talvez seja o mal do ser humano com tanto acesso às palavras e possibilidades de alcance com o discurso.

E aí eu nem dissimulo inveja. Eu gostaria de, no fundo do coração, me apegar a algo que me faria fugir dessa sensação de desilusão, falta de saída, ausência de esperança na véspera de ano novo e apatia no natal. E ao mesmo tempo critico e gostaria de participar de algumas fugas como aquela pela Igreja, pela política, seja esquerda ou direita, pela família preocupada em compartilhanr tantos momentos felizes com os outros, deixando no modo privado as intrigas e dificuldades - como se algum instituto fosse a única resposta para tudo.

Assim me afundo em apatia. Talvez essa seria uma palavra para 2016. Eu brincava de gostava de anos pares, mas até essa minha baboseira deixou de fazer sentido. Quem sabe tantos números 7 no próximo ano me deem a sorte que ando precisando, mas mais que isso: alguma espécie de ilusão e motivo. Acho que não.

Não sei se há saída quando se começa a enxergar a vida com esses óculos. Seria uma visão mais limpa ou rebuscada? O coração não sabe discernir e a alma se sente pesada. Não aguenta nem mais acompanhar a brutalidade humana por meio de notícias e se pergunta o porquê de ter estudado Jornalismo se não aguenta o tranco. Mas a verdade é que o tempo me trouxe sensibilidade, medo, insegurança e incertezas. 

Seguro as lágrimas por nervosismo com certa facilidade quando lembro de como um dia já fui, mas descobri que segurar o choro pode ser pior. Porque assim as coisas da vida me afetam mais. Tomo para mim a dor dos outros. Concordo com o ditado que se deve colocar no lugar do outro, mas talvez eu tenha tornado isso pessoal de mais e tomado isso como uma verdade absoluta, da forma mais séria que poderia ter sido tomada. Afinal, seriedade sempre foi um adjetivo próximo a mim.

E acho que pensar nisso tudo faz mal. Melhor mesmo é viver num ciclo infinito da rotina (à la Westworld) e se contentar com o que está restrito a minha volta e parar de pensar besteira. Tentar engolir o mundo com um gole só para matar a sede de uma só vez pode não ser muito inteligente, mas é complicado deixar alguma intensidade e certa insanidade de lado. 

Talvez seja hora de acabar com aquela garrafa de vinho da geladeira e ir dormir.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Espaços e verdades





Demorou anos para entender aquela angústia tão familiar. Exatos trinta e cinco. Era uma mistura de ciúme e possessividade com a vontade de se libertar. Camila era assim, oito ou oitenta, como se costuma dizer. Tinha dentro de si sentimentos tão antagônicos.

Provavelmente no início, apenas repetia comportamentos que enxergava no dia-a-dia. Depois, tornou "o jeito dela mesmo", como era conhecida. Séria e brava. Era comum descrever Camila desse modo.

Quando conheceu Fabrício, nem sabia, contudo já havia entendido que a liberdade essa essencial, e o ciúme e a possessividade nem tanto. Ele era popular e não iria restringir as horas livres apenas a Camila. Ela não se entristecia com isso. Aproveitou e teve o primeiro relacionamento assim.

Deixaria Fabrício ser feliz também sem ela, contanto que ele fizesse o mesmo. Claro que ele não tinha problemas com isso. O exemplo que ele seguiu desde sempre era o oposto. Fabrício respeitaria o espaço da companheira.

Mas aí Camila sonhou que ele estava desacompanhado. O antigo sentimento veio à tona; não suportava a ideia de Fabrício se divertir sem ela. "Imagina! Não pode!". Com custo conseguiu segurar o impulso e não disse nada. Não contou o sonho. Se fosse outros tempos, falaria. E o sonho mexeria tanto com a cabeça dela que talvez até repensasse o conceito de liberdade.

Porém ela se lembrou de quantas mulheres conhecia com aquele mesmo pensamento da Camila do passado...Elas prendiam o parceiro e elas mesmas. O homem era proibido de sorrir por e com outra mulher. Hoje sente dó por elas.

Depois desse sonho, uma frase - claro que dita por um homem - não saiu da cabeça de Camila por dias:

- Por puro egoísmo não conseguimos imaginar outra pessoa ao lado de quem amamos.

Agora Camila entende que um casal na verdade não é apenas um. Um casal é simplesmente a soma de dois. E os dois são seres independentes. 

Assim como Camila, Fabrício poderia querer e ter alguns momentos sozinho, falar besteira com os amigos, desejar outras mulheres secretamente. No fundo ela sabe. Mas há coisas que é melhor fingir não saber. Afinal, todo mundo deseja todo mundo, apesar de a maioria se contentar apenas com uma pessoa. Seria isso contentamento ou imposição? Não sabia mais. Talvez demore mais trinta e cinco anos para Camila desvendar essa outra verdade.